Filosofia



 
 

AIRWOLF

 

Sou mesmo obstinado com algumas coisas. Um amigo arrumou diversos emepetrês de séries antigas de televisão, e coloquei a trilha de Airwolf como toque de celular. É um seriado que não assisti, mas girava em torno de um helicóptero. Tinha o Ernest Bornigne no elenco.

No fim de semana decidi aumentar o volume do arquivo, pois nem sempre ouvia o toque. Fui na sexta para casa sem meu notebook, e no da minha esposa não tinham os programas adequados. O mais sensato era esperar até segunda e fazer tudo com facilidade. Nada disso. Fui para a internet no notebook da minha esposa, e não saí de lá enquanto não consegui o que queria.

Foi mais ou menos assim minha saga. Primeiro baixei um programa de edição de áudio. Fiquei feliz de editar o arquivo, mas logo percebi que o programa só salvava em formato uâivi, que não resolvia meu problema. Então encontrei um convertedor de formatos e - tadá - lá estava eu com um emepetrês de volume aumentado para +6dB.

Restava ainda outra dificuldade técnica: passar o arquivo certo para o celular certo. O notebook da minha esposa não tem blutúf, e o celular em questão não aceita uéssibê. Foi quando tive a idéia de transmitir o arquivo via uéssibê para outro celular e depois transmiti-lo para o celular certo. Duas horas depois, e um pouco de tutano, eu tinha o arquivo com mais volume no meu celular certo. Não seria a falta de programas, ou de protocolos de comunicação, que me faria parar. Nada disso. Que segunda o quê!

Você não notou a semelhança disso com o problema do sofrimento? Eu também notei.


 

Em setembro vou comemorar dez anos de lida apologética. Tento com a mesma tenacidade entender como o mundo funciona através da ótica bíblica. Durante todo este tempo tive a mesma tenacidade que usei para resolver o problema Airwolf. Cheio de sinceridade, dei a cara a tapa nos mais diversos aspectos, balancei muitas vezes, mas continuo cristão, talvez mais do que nunca. Nem mesmo o problema do sofrimento - se Deus é bom e poderoso, por que existe sofrimento? - me tirou de meu eixo cristão.

De longe o problema do sofrimento injusto é o maior problema apologético para o cristão. Já li muita coisa escrita por cristãos, por ateus e agnósticos, mas algo parecia faltar. Escarafunchando camadas e mais camadas de material escancaradamente cartesiano, fui me dando conta que o problema do não cristão revoltado contra o Deus cristão é menos um problema inteletual cartesiano e mais da afeição. Estranho, não? E também contraintuitivo, certo?

Perde a fé aquele que se sente traído quando vê o sofrimento, quando se depara com a face da fome, da matança, da vida por um vintém, das crianças abusadas sexualmente por pais ou tios ou outras das inúmeras variações malignas do mal. É como o rapaz de fé bambeante pedindo aos berros a Deus "Se você existe, cure meu pai agora!". O pai morre e, portanto, Deus não existe. Este é um salto lógico injustificável por qualquer regra do bom pensar. A conclusão afetiva, da alma ferida pela traição de Deus, deveria ser "Hoje Deus morreu para mim". Tudo o que vier de justificativa posterior é uma mera justificação ad hoc de um coração espezinhado, estranhado de Deus por aquilo que julga ser uma traição divina.

Quisera eu saber defender Deus para gente assim, livrá-las deste veneno e reconduzi-los à cura dos afetos. Quisera eu ter a mesma tenacidade e sucesso com estas pessoas que obtive com o toque do Airwolf. É razoável dizer que consigo debater bem no nível acadêmico o problema do sofrimento e de uns e outros problemas apologéticos, mas quem se sente traído dificilmente se deixa amolecer para um Deus de amor que cura. Não há tenacidade que cure a afeição envenenada de um coração espezinhado. E, infelizmente, não há nenhum programa disponível da internet para me ajudar.

Nesse terreno, ao mesmo tempo sagrado e amaldiçoado, só Deus consegue pisar. Que ele me conceda a graça de ver o milagre de um coração espezinhado ser transformado em um coração curado, sem venenos nem traições, sejam reais ou imaginadas. Só então poderei me alegrar com o sucesso do emepetrês do Airwolf sem sentir também uma agulhada no coração por aqueles que mataram Deus dentro de si.



Escrito por Marson Guedes às 13h20
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COSMOVISÃO: CRISTÃ E SÃ

 

Parte 2 - final


 

Se existe um mar revoltoso que representa a maldade humana, existe também uma plataforma sólida, inexpugnável de segurança acima do penhasco. Se existe uma maldade que vai às raias da malignidade, existe também uma bondade totalmente confiante na regeneração do homem. Diante da ansiedade o cristianismo apresenta a providência divina: "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus". Diante da violência, o cristianismo propõe a regeneração da natureza humana.

Resolvidos os problemas da ansiedade e da violência, pode-se na plataforma pensar, refletir, correr e brincar. É exatamente a firmeza e a solidez que permitem à plataforma ser um lugar propício à imaginação e à criatividade, convidativos à reflexão intelectual e à discussão profunda dos temas existenciais. Tudo funciona com muita fluidez e liberdade porque a plataforma é sólida, firme. Há quem diga que tal robustez mais assusta do que abraça. Ao contrário: é nos braços fortes do pai que uma criança se atira, sem sequer pensar na possibilidade de não ser pega no ar para a diversão entusiasmada de ambos. É somente a firmeza que faz a criança voltar correndo e pedir "de novo" com aquele gritinho agudo de satisfação.

O cristianismo não poderia ser inventado. Não há criatividade humana que possa produzir um Deus que assume a forma de suas criaturas humanas, e que então se deixasse morrer para pagar o preço da sentença para a ansiedade sem solidariedade e da violência maligna. A sentença de morte Jesus, o Deus feito homem, sofreu para satisfazer a justiça divina e para tornar possível a regeneração do mais vil dos seres humanos. É o abismo do mar revoltoso anulado para sempre pela plataforma seguro e cheio de vida. Isso é salvação.

Há mais um sentido em que o plataforma responde aos mais prementes anseios do ser humano, o anseio pela eternidade. Se o Senhor da plataforma venceu a morte na ressurreição, aqueles que vivem na plataforma também experimentarão a vitória sobre a morte quando esta for engolida pela vida. Os que vivem na plataforma receberão vestes novas para combinar com um corpo glorificado. Então teremos a eternidade para conhecer o Senhor da plataforma. E lá - seja onde for este lá - será um lugar ainda mais propício à imaginação e à criatividade, ainda mais convidativo à reflexão intelectual e à discussão profunda dos temas existenciais.

É por estas e outras que continuo cristão. É que a cosmovisão cristã explica muito bem o mundo em que vivo sem me privar dos desejos de esperança e eternidade. Ela é sã porque é cristã.



Escrito por Marson Guedes às 11h08
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COSMOVISÃO: CRISTÃ E SÃ

 

Parte 1


 

O lugar é convidativo, claro, abundante em luz do sol, a temperatura é agradável, convida ao mesmo tempo ao exercício do corpo e o da mente.

Quem olha de fora, da perspectiva de um vôo panorâmico, vê apenas rochas muito altas, um mar revolto em baixo, e um plataforma lá no alto. A plataforma é enorme, dá a sensação de robustez, firmeza e rigidez. Quem olha para baixo imagina que a queda da plataforma é uma questão de tempo; quem olha para cima se esquece da ameaça do penhasco tamanha a força que a imagem da plataforma transmite.

Mais do que a firmeza do plataforma que parece ficar nas alturas, quem olha para cima tem vontade de ir para lá e descobrir o que tanta solidez abriga. O lugar é convidativo, claro, abundante em luz do sol, a temperatura é agradável, convida ao mesmo tempo ao exercício do corpo e o da mente.

Mas isso não é exatamente um lugar: é uma cosmovisão.


 

É assim que eu enxergo o cristianismo, ou melhor, a cosmovisão cristã. De um lado, um mar revolto, mortífero e inclemente. De outro lado, a solidez de uma plataforma que sobrevive sem tremor ao mais revolto, perigoso ou traiçoeiro dos mares.

Reconhecer que existe um mar revoltoso e mortífero é uma das grandes qualidades do cristianismo. Quem olha para o mundo com estas lentes vê com mais nitidez o que costuma ser vivenciado como um sofrimento surdo, a saber, a maldade humana. Muita gente fala com um indisfarçado ar de superioridade sobre a responsabilidade que Deus tem de evitar o mal. Tudo está nas mãos dele, então ele que resolva o que fez de errado. Não aceito esse argumento, porque reduz a pó a responsabilidade humana sobre o que acontece sobre a terra, incluindo a maldade. E no fim, quem joga a própria maldade em Deus só consegue posar com uma impotência providencial e permanecer sem uma explicação decente para a maldade que se espalha tal praga em nosso mundo. Existe um mar revoltoso, mortífero, e alguém tem que dar uma explicação. O cristianismo explica.

Eis o resumo da ópera: Deus criou o homem bom. Quando surgiu uma oportunidade, o homem preferiu virar as costas para ele e seguir em carreira solo. Trocamos o padrão divino de bem e mal e adotamos o nosso próprio padrão. Quem se desliga de um Deus provedor fica ansioso ao constatar tantas incertezas na vida, e o resultado é um só: a ansiedade quanto a tudo e todos. Quem é ansioso quer guardar o máximo hoje para sobreviver à incerteza do amanhã. Então, mesmo que tenha bastante, o ansioso não cede nada a ninguém. Quem não conseguir prover para si mesmo, vai sucumbir. É daí que nasce a falta de solidariedade. Quem tem força bruta, usa-a para se defender e para atacar. Pancada em cima de quem me atrapalha, pancada em cima de quem tem o que eu quero, pancada em quem passar pela frente pelo simples gosto de dar pancada. É esta a gênese da violência que infesta a natureza humana.



Escrito por Marson Guedes às 11h18
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COSMOVISÃO: SECULAR E MONOCULAR

 

Parte 3 - final


 

Natal e Ano Novo são duas datas doídas para mim, especialmente porque vejo nessa porção do ano uma dose extra de hipocrisia. Gosto de dar e ganhar presentes, mas a sanha consumista desses dias me embrulha o estômago. E experimente você dizer isso para as pessoas... É sermão na certa.

Por incrível que pareça, o secularista não tem o que dizer sobre esta hipocrisia que seria tão fácil de denunciar. É que a crítica fica vazia se não houver algo a se colocar no lugar do que foi tirado. O secularista diz que esta hipocrisia típica do Natal é uma corrupção alienista da religião, e que o mais indicado é deixar de lado estas baboseiras crédulas. Mas e quanto à tão desejada transcendência que o Natal tão facilmente desperta nas pessoas, ainda que de forma hipócrita e superficial? O secularismo não se pronuncia sobre o assunto.

Eu posso criticar essa superficialidade e hipocrisia natalinas porque minha cosmovisão me permite. Posso dizer com veemência minhas críticas porque o Natal é o evento menos natural que consigo imaginar. É que Deus resolveu se fazer homem, este homem veio como um bebê indefeso, nasceu em um lugar fedido que só serve para animais, e foi morar em uma cidade desconhecida. Desde quando que Deus virar homem é coisa corriqueira, que não provoca espanto reverente? Desde quando reis nascem em estrebarias? Desde quando reis nascidos na Palestina vão morar em Belém - uma cidade de ninguém - e viram carpinteiros - profissão de qualquer um? Eu critico a corrupção e tenho o que colocar no lugar, a saber, a narrativa do Natal tal qual aparece nos evangelhos e não a narrativa da decoração dos shoppings.

Se eu quiser, posso criticar a supericialidade e a hipocrisia do Natal. Tenho autoridade e argumentos. Minha cosmovisão me dá os instrumentos para corrigir as próprias corrupções da cosmovisão. Assim, os partidários tem mais chance de corrigir as coisas do que os próprios oponentes. Nem para isso...

Se a disputa virou a disputa entre irmãos mais velhos, fiquei seguro na segurança e na sombra providos pelo meu irmão mais velho. E o mais legal é que irmão mais velho pode ser entendido de mais de uma forma.

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O secularismo para mim é um imenso pavilhão, com piso de estacionamento, vigas quadradas e iluminação de escritório. Não é um lugar inóspito, mas também não é dado a muita alegria ou criatividade. É mais fácil descrever o que falta do que aquilo que de fato possui. A dureza fria das vigas nuas é a imagem do transcendente proibido à força. A alegria e aconchego próprios da alma humana não encontram expressões ruidosamente alegres porque qualquer barulho mais entusiasmado faz o ouvido doer por causa da reverberação. E a ausência de iluminação natural só compõe o quadro de artificialidade.

Cosmovisões são como o ar que respiramos: não podemos vê-las, mas é o que nos possibilita viver. Olhamos o mundo através desta lente da qual raramente tomamos consciência. Meu irmão mais velho - a cosmovisão judaico-cristã que professo - me diz que o problema do secularismo não está nos ruídos alegres nem no desejo de transcendência, e sim no próprio secularismo. Se quiser brincar, encontrar significado para a existência e respeitar sua alma, você terá que ir para outro lugar, longe da esfera de influência deste secularismo, deste irmão mais velho um tanto capenga.

É por isso que, apesar das superficialidades e hipocrisias de meus irmãos cristãos, continuo sendo cristão. Daquele editorial, só restou um texto bem escrito.



Escrito por Marson Guedes às 11h43
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COSMOVISÃO: SECULAR E MONOCULAR

 

Parte 2


 

Basta-nos dizer que o secularismo é a antítese de tudo o que é religioso. Ser secular é não ser religioso. O secularista sente como a coisa mais óbvia do mundo o dever de defender o mundo da corrupção religiosa. Foi esse dever que moveu o editorial daquele jornal a escrever contra o ensino do criacionismo ao lado do evolucionismo que, na opinião do jornal e na de muita gente, tem inúmeras evidências científicas que lhe dão suporte.

No secularismo não existe nada que vá além da natureza, do natural, nem se cogita o sobrenatural. Portanto, não existe espaço para o criacionismo. Se o criacionismo avança na esfera pública, a mentalidade secular se sente obrigada a manifestar sua dicordância e desfilar, ainda que sucintamente, sua defesa. Mas acho que o secularismo a insuflar aquele editorial cai sobre o próprio peso da inadequação à vida, e então o alegado peso da evidência científica a favor do evolucionismo perde sua força.


 

Estudar o evolucionismo foi uma coisa muito chata, ossos do ofício de qualquer apologista que se preze. Li, pensei e ouvi bastante. Estudei com defensores do evolucionismo, e sei o que digo. Fui direto à fonte, não peguei atalhos nem me vali de resumos duvidosos. Duas coisas me fizeram desistir do evolucionismo. A primeira é que os textos, especialmente os de psicologia evolutiva, estão coalhados de expressões como "supondo que...", "teoricamente é de se esperar que...", "os registros sugerem que...". Eu tinha a expectativa de encontrar uma boa porção de respostas e uma medida razoável de suposições. Foi o contrário com que me deparei.

Essa primeira razão é subsidiária, mas a segunda razão vai ao coração do evolucionismo, tirando-lhe a vitalidade: a afirmação mais importante do evolucionismo é também a mais carente de provas científicas, a saber, a especiação. Esta deriva sua força mais do apelo teórico do que dos dados apresentados em seu favor. Especiação acontece quando uma espécie se transforma em outra de tanto se adaptar: peixes que viram répteis que viram aves, e assim por diante. O único empecilho é que não se pode de fato provar a especiação porque ela se dá ao longo de era geológicas, impossibilitando qualquer arranjo experimental que a possa comprovar ou negar definitivamente. Por que o editorial cantou os louros da teoria evolutiva e de suas comprovações? Porque não conhece os meandros da teoria - nem era de se esperar que o fizesse - e porque sua cosmovisão diz que este é o certo. Assim como a especiação é um artefato da teoria evolucionista, defendê-la com o argumento fraco das evidências científicas é um artefato das cosmovisão secularista.

Desafiei o irmão mais velho, e constatei que ele não era tão forte nem tão assustador.


 

Passada esta fase, descobri que havia um problema ainda mais grave com o secularismo, a saber, ele não satisfaz os anseios mais persistentes do ser humano. Quanto à imanência o secularismo é adequado, mas quanto à transcendência a nota é zero. Zero porque o secularismo sequer admite que exista tal coisa. É possível argumentar que estou usando uma cosmovisão para criticar outra cosmovisão, e o argumento seria válido. No entanto, o que me importa é quão bem a cosmivsão explica o mundo e nos ajuda a navegar nele - afinal, é para isso que a cosmovisão serve.

De uma coisa sei, da qual estou certo: o ser humano tem dentro de si uma necesidade premente e persistente de transcender, ou seja, envolver-se com algo que seja maior do que ele mesmo, com algo que tenha significado. Não existe ciência nem secularismo que dê jeito nisso. A ciência simplesmente não pode se pronunciar sobre questões de significado, ela não tem Instrumentos para tanto. O secularismo, em vez de dar uma resposta - qualquer resposta - resolveu sabe-se Deus lá porquê que a transcendência sequer existe. O secularista fica a ver navios em seu momentos de transcendência, navios palpáveis, mas nunca os navios metafóricos de esperança, significado ou eternidade. O secularismo fracassa em satisfazer a alma humana porque lhe nega a existência.

Além de não ser tão forte nem tão assustador, o irmão mais velho também não usa o alfabeto completo na hora de dizer o que tem a propor. Arriscaria ainda a dizer que, em momentos de nervosismo, ele perde as palavras e chega a gaguejar.

Quer mais? Tem. O secularismo sequer consegue criticar com a acidez necessária a religiosidade à qual professa resistir.

 

(continua)



Escrito por Marson Guedes às 11h11
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COSMOVISÃO: SECULAR E MONOCULAR

 

Parte 1


 

É como se eu estivesse em um imenso pavilhão, um misto de estacionamento de subsolo com teto de escritório. As vigas são quadradas, muito largas, feitas daquele concreto claro que parece estar polido, nas quais se divisam reflexos das luzes vindas de luminária compridas e amaciadas por um plástico leitoso. Tudo é muito limpo, quadrado, organizado, asséptico. Se fosse um estacionamento, caberia bem uns trezentos carros sem aperto; se fosse um escritório, abrigaria bem umas quinhentas pessoas trabalhando sem se acotovelarem.

Toda a iluminação é artificial, não há janelas nem frestas por onde a luz do dia consiga se imiscuir. Não imagino lá marqueteiros tentando bolar o próximo comercial sobre o qual todo mundo fala. Não. Entretanto, é possível imaginar uma equipe de engenharia dos velhos tempos, daquelas que usava prancheta, régua paralela, lapiseira 0,5 mm, canetas nanquim, calculadoras científicas, compasso e transferidor. O lugar não é antiquado, apenas combina com esta imagem de rigor manual, exatidão e minúcias de cálculo.

Não é um lugar intimidador, mas dá a impressão que falta algo. Quem solta um grito no meio deste pavilhão de subsolo não ouve o eco típico dos lugares abertos. Não. Junto com o eco vem muita reverberação que confunde o ouvido com o richocheteio das ondas sonoras que batem e voltam no piso liso e nas vigas nuas. A voz em seu tom normal fica amplificada, com som alargado, mas qualquer coisa mais alta ou estridente recebe de volta mais confusão do que amplificação. O ganho de volume se perde no esforço maior que é necessário para compreender o conteúdo no meio de um amontoado de ondas sonoras que se cruzam, se anulam e se contaminam com a poluição acumulada na reverberação. Ali é lugar de se falar baixo, comedidamente e com boa dicção. Qualquer barulho divertido dói o ouvido. Não serve, por exemplo, como playground nem campinho de futebol. Essas coisas são divertidas demais para este pavilhão. É lugar muito bom para deixar o carro, mas não serve como moradia, lugar de lazer nem ambiente de trabalho.

O lugar é limpo, quadrado, eficiente, asséptico. Mas não é bem um lugar, é uma cosmovisão.


 

Recentemente li o editorial de um jornal que criticava o ensino do criacionismo nas escolas. Referia-se a algum estado ou município que aprovara uma lei que permitia o ensino do evolucionismo e do criacionismo. Nem me dei ao trabalho de descobrir onde tal fato se dera. Eu acho esse assunto muito chato, mantenho-me a léguas de distância dele. O tema me lembra do ranço religioso herdado dos batistas americanos, que se apegou a mim tal coisa grudenta e asquerosa, coisa da qual me afasto bruscamente sempre que a identifico.

Li o texto e minha primeira impressão foi muito boa, pois estava bem escrito, bem estruturado e sucinto apesar de dizer tudo o que precisava dizer. Fiquei sem ação. Se estivesse em um debate, eu teria ficado sem fala, sem palavras decentes que compusessem uma resposta respeitável. Certo é que as respostas vieram, e elas evocaram em mim a imagem de um pavilhão com teto de escritório e piso de estacionamento, lugar que não comporta barulho nem serve de ambiente para a criatividade.

Cosmovisões são coisas elusivas, são como o ar que não se pode enxergar, mas que podem matar se faltarem. São coisas invisíveis, mas que definem quase tudo (ou tudo - é que fiquei temeroso na hora de dizer "tudo") em uma sociedade e, por extensão, para cada indivíduo.

É por isso que uma observação feita dentro de uma cosmovisão tem mais peso que a observação em si. O que vale mais? A ameaça que você faz para os meninos folgados da sua rua, ou seu irmão mais velho que lança olhares raivosos aos moleques folgados? O que vale mais? Dizer que o evolucionismo tem inúmeras evidências científicas, como fez aquele editorial, ou dizer isso dentro do arcabouço secular que o aceita com a maior naturalidade? A cosmovisão é o irmão mais velho que põe para correr as críticas feitas por moleques atrevidos. A menos, é claro, que você queira enfrentar o irmão mais velho.

 

(continua)



Escrito por Marson Guedes às 13h28
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MENOS PLATÃO E MAIS CRISTO

 

Por Alexandre Robles (link).

 

Pois bem, se eu sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés,
vocês também devem lavar os pés uns dos outros.

João 13.14


Jesus afirma que é Mestre e Senhor de seus discípulos e sob essa afirmação determina que sigam seu exemplo. E porque é Senhor é que Ele também é Mestre. Em outra ocasião, falando a respeito dos fariseus de sua época, Jesus disse que há apenas um que deve ser chamado Mestre por causa de sua proeminência divina, nivelando todos os homens como irmãos uns dos outros [Mateus 23.8]. Cristo declara que apenas o Senhor é que tem ascendência e autoridade sobre os homens e que todos os homens, independente da autoridade funcional, estão na mesma posição hierárquica de servos de Deus, por isso que nenhum homem seja servo de outro homem [Atos 4.19].

Também ensina que o Mestre deve ser seguido pelo que faz e não pelo que diz. Diferentemente, os fariseus eram aqueles que diziam muito e nada faziam, eles pretendiam se sentar na "cadeira de Moisés" e Jesus denuncia sua atitude advertindo seus ouvintes de que façam o que deles ouvem, mas não imitem o que eles fazem [Mateus 23.1-3]. O discípulo de Cristo deve seguir o que Ele fez e não somente o que falou.

Isso torna o Evangelho uma mensagem única na humanidade. E o contexto judaico nos tempos de Jesus informa que vivemos dias muito parecidos.

Os judeus viviam sob o Império Romano, tinham na língua grega seu idioma popular, para o qual haviam traduzido do Hebraico todo o Antigo Testamento. Roma era o Império Político, mas sua cultura era plenamente influenciada pelo mundo helênico, que além da língua grega, deixara para Roma também a cultura. A filosofia grega era difundida, conhecida e sutilmente impregnada em toda consciência social da época.

Por isso, a atividade de reflexão da época era discursiva, baseada na filosofia que valorizava mais o pensamento que a atitude e que defendia que o livre pensamento era a maneira com que o homem transcendia e se relacionava com a divindade. Era comum que os homens se reunissem a partir de discursos.

Os fariseus apoiavam-se nessa construção filosófica onde o discurso é mais importante do que a prática e foi isso que Jesus denunciou.
Já o judaísmo, baseia-se na experiência, no relacionamento pessoal, na transformação interior que causa fatos exteriores. Os fariseus, apesar de guardarem e defenderem princípios legais interpretados a partir da Lei de Moisés, eram mais gregos que judeus em sua construção existencial, porque se apoiavam no discurso e não na prática.

Jesus, em meio a esse desvio da tradição dos fariseus, afirma que o processo de ensino cristão acontece naquilo que se faz e que deve ser imitado. Por isso ele ordena que seus discípulos façam discípulos de todas as nações e define o método: "ensinando a guardar todas as coisas" [Mateus 28.20], o que difere do pensamento grego que determinava que o mestre deveria ensinar todas as coisas, sem necessariamente ensinar como fazer.

O apóstolo Paulo, judeu em sua construção existencial que viveu a cultura grego-romana, afirma que deveria ser imitado, assim como imitava Jesus [1 Coríntios 11.1], demonstrando que entendeu perfeitamente o método judeu de ensino. O escritor aos Hebreus afirma que os guias espirituais devem ser imitados em sua fé [Hebreus 13.7]. E Paulo lembra seu discípulo Timóteo de que seu discipulado está baseado no conhecimento íntimo e pessoal, necessário para a imitação [2 Timóteo 3.10,11].

Assim, a prática cristã contemporânea deve se basear na tradução judaica de Jesus e não na filosofia grega. A filosofia influenciou nossa teologia,que influenciou nossa eclesiologia, que influenciou nossa práxis cristã. Temos sido gregos e não judeus, temos sido platônicos e não cristãos.

No cristianismo filosófico moderno o amor é platônico, a teologia é utópica, a prática eclesiástica é romântica e por conseqüência a prática cristã – experimentada no cotidiano – é fraudada pela consciência de que aquilo que é pregado não pode ser vivido, assim como os pregadores e líderes espirituais mesmo afirmam, de que o que pregam não é vivido integralmente.

Fato é que no cristianismo "cristão", ou seja, que está apoiado de fato na vida de Cristo, não há espaço para utopias e platonismos, aquilo que se prega e que se requer foi vivido pelo Mestre. Jesus lava os pés de seus discípulos para depois dizer que eles deveriam fazer o mesmo. Ele poderia ter dito, assim como os gregos, que os discípulos deveriam obedecer a sua ordem, mas sendo judeu, disse que deveriam imitar o que fazia.

Tudo o que o Evangelho afirma que devemos viver é possível ser vivido. Deus não blefou, como os filósofos que tratam de teorias e pensamentos. O cristianismo não é uma utopia impossível e romântica que eleva o padrão moral dos homens, mas que jamais poderá ser vivido. Isso me faz lembrar da história do professor de teologia que estava analisando o texto de Paulo que diz que seus leitores deveriam imitá-lo assim como Ele imitava a Cristo e um aluno o interrompeu para observar que Paulo fora arrogante em sua afirmação. O professor silenciou por alguns segundos e disse que se o aluno não poderia dizer o mesmo não deveria estar naquela cadeira, pretendendo o ministério. Para o professor, definitivamente, o evangelho não é uma filosofia, para o aluno, porém, o cristianismo é uma utopia que valida os blefes dos pregadores modernos.

Por isso, a Igreja Contemporânea deveria retornar às bases judaicas de Cristo para apoiar seu ensino e prática. Carecemos de mestres que nos ensinem como viver o evangelho e menos de pregadores e seus discursos inflamados que eles mesmos não crêem. Carecemos de uma experiência realmente comunitária, onde as expressões de louvor migrem do palco da performance dominical para as rodas e ajuntamentos dos dois ou três que cantem o sentido de sua fé e não as "dez mais tocadas na rádio gospel". Carecemos de ministração pessoal e relacional e não de orações feitas de si para si mesmos, que promovem discursos infundados e retóricos e que fazem com que as orações simples do dia a dia se transformem em "mantras" vazios de significado para cumprir protocolo religioso antes de refeições em família.

Carecemos de menos discurso, de menos congressos que promovem figurões e estrelas do mundo evangélico-gospel.

Que a teologia filosófica grega dê lugar à teologia cristã judaica. Menos Platão e mais Cristo, para a glória de Deus, para que o evangelho seja vivido.



Escrito por Marson Guedes às 12h13
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O QUE ESCLARECE OS SIMPLES E CONFUNDE OS ENTENDIDOS?

 

© 2007 Alexandre Robles (link).

 

Jesus usava como linguagem de ensino a parábola. É uma história contextualizada de fundo moral que serve para ilustrar um argumento ou uma mensagem. Era, por assim dizer, um contador de histórias e enquanto falava de modo simples apresentava a profundidade das obviedades. Dos assuntos que geravam polêmica suas parábolas geralmente demonstravam que os argumentos eram equivocados e que havia outro prisma a ser levado em consideração, mas não respondia, ou às vezes respondia com outra pergunta.

Ele mesmo deixou claro aos seus discípulos que suas palavras confundiam os que achavam que entendiam tudo e esclareciam os simples. Deste modo Ele redefiniu que sabedoria não é resultado da exaustiva aplicação da lógica humana determinada por suas categorias acadêmicas, mas sim de um pensar com as categorias do seu Evangelho.

Paulo nos lembrou isso ao afirmar que o Evangelho de Cristo é loucura para o mundo e que isso é intencional, pois Deus decidiu confundir a sabedoria dos homens e revelar-se aos humildes.

Assim é que as palavras de Jesus confundem os “entendidos” e esclarece os simples. Aqueles que se aproximarem dos conteúdos do Evangelho de Jesus Cristo desejando entende-lo a partir de matizes filosóficas e categorias científicas não enxergarão um palmo. Já aqueles que se aproximarem com o coração aberto serão esclarecidos e chegarão à conclusão de que o simples e o óbvio, quando profundamente tratados, valem mais que todas as elaborações e construções que a humanidade em toda a sua história já produziu.



Escrito por Marson Guedes às 23h42
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CETICISMO SAUDÁVEL - 5 DE 5

 

Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo. E creram muitos...

Atos 17:11-12

 

Já disse que uma boa dose de ceticismo não faz mal a ninguém; disse também que o ceticismo filosófico levado ao extremo nos tira de uma "ilusão" e nos larga flutuando no meio do nada.

Já disse que a palavra da vida – Jesus – foi tocada, ouvida, vista e contemplada, e que isso é o que nos firma em uma realidade que torna desnecessária o questionamento cético; disse também que Tomé não deve ser o padroeiro dos céticos que querem continuar céticos, pois ele pediu para ver e tocar e, no final, creu.

Já disse que o ceticismo aplicado à ciência vem disfarçado de método, o que esconde um naturalismo subjacente que muitos céticos ignoram ou preferem ignorar; já disse que os céticos fazem boas perguntas, mas que não têm boas respostas.

O empate cético não me satisfaz. De alguma forma, anseio por um espírito nobre. É que aprendo com os moradores de Beréia.


 

Paulo e Silas estão viajando de cidade em cidade para espalhar o cristianismo. Passaram em Tessalônica e depois foram para Beréia; lá encontraram gente interessada em na mensagem que pregavam. Bom sinal.

Com sua costumeira precisão histórica, Lucas (o autor do livro de Atos) nos brinda com a informação de que os bereanos não dispensaram uma análise cuidadosa e disciplinada da mensagem de Paulo e Silas. Antes, leram os textos do Antigo Testamento que Paulo citava e iam lá conferir se era isso mesmo. Eles ficaram contentes com as boas-novas, mas nem por isso jogaram o cérebro e a precisão fora em nome de uma fé cega. Em vez de questionar, a Bíblia afirma que os bereanos eram mais nobres que os tessalonicenses. Parece que gente com a dose certa de ceticismo não incomoda Deus, parece mesmo que ele até prefere gente assim.

Mais uma vez vemos gente inquisidora examinando as coisas e, no fim, encontrando a fé. Estes descobriram que aquele objeto de fé – o Jesus a quem Paulo pregava – resistia a seus questionamentos. Afinal, fé boa é aquela que se firma sobre um objeto sólido, por assim dizer. O que passa disso é crendice.

Esta tem sido minha experiência: quanto mais questiono a Bíblia e a validade do Deus nela descrito, mas confiante fico no que leio. Digo isso porque o mundo torna-se um lugar mais inteligível quando o enxergo com as lentes que adquiri lendo a Bíblia. Mais do que um mundo real, encontrei em suas páginas esperança para superar o que é ininteligível nesse mundo. Mais do que descrever como o mundo é, a Bíblia também aponta como o mundo deveria ser e que um dia a plenitude tão desejada vai virar realidade.

De onde vem tanta confiança? De usar meu ceticismo indiscriminadamente e verificar que a Bíblia é mais "pé no chão" do que as alternativas. Já fiz como o Tomé duvidoso; sou hoje como o Tomé que viu, tocou e creu.

Quero ser tão nobre quanto os bereanos. Sigo o exemplo deles submetendo a Bíblia a um exame crítico, como se ela sempre fosse culpada antes de se provar inocente. Mesmo usando um critério mais rigoroso do que normalmente usado no ceticismo cotidiano, fico impressionado com o vigor de suas propostas. O mundo se revela em toda sua crueza; o mesmo acontece com a esperança.

Foi assim que aconteceu comigo. Agora tenho a vontade de ver todos os céticos andando por ele. É esse meu convite.



Escrito por Marson Guedes às 20h23
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BOAS PERGUNTAS, RESPOSTAS NEM TANTO - 4 DE 5

 

Para entender melhor, seria bom se você lesse o texto anterior – "O que é um cético?"


 

Já disse que o ceticismo é uma abordagem que não me satisfaz, pois ela depende de uma suspensão do juízo que não consigo aceitar. Eu não me satisfaço com o empate entre o filósofo do senso comum e o filósofo cético. Há alguma coisa dentro de mim que anseia por um conhecimento sólido e seguro sobre o qual construir uma vida com significado. Eu quero crer que uma pedra é uma pedra, que tenho uma mente de verdade, que as pessoas com quem me relaciono existem e também possuem mente, que é possível transmitir pensamentos e afetos de uma mente para outra, embora esse processo esteja longe de ser perfeito.

Sabe uma coisa que me incomoda em relação aos que adotam a posição cética? É que eles fazem perguntas muito boas, mas não costumam dar respostas tão boas às próprias perguntas. Isso me parece especialmente verdadeiro quando se trata do ceticismo aplicado à ciência.

Penso que o grande problema do embate entre ciência e religião se deve ao fato de que muitos cientistas pensam que as abordagens científicas são tão precisas quanto os métodos científicos. Isso fica evidente na declaração cética da revista Skeptic, pois eles tratam o ceticismo como um método, uma abordagem prévia, e nada mais do que isso. É aqui que as coisas entortam. Na minha opinião, a discussão sobre a validade do método científico é filosofia da ciência, não a mera aplicação de um método. O método científico pode ser preciso, mas quando discutimos sua capacidade de produzir conhecimento confiável a discussão passa a ser filosófica. Discuta temas filosóficos como se fossem "apenas" um método: é a receita perfeita do angu de caroço. Fazer ciência não é o mesmo que fazer filosofia da ciência. Em outras palavras, o cientista que entra todos os dias em seu laboratório para produzir conhecimento precisa se preocupar com seus procedimentos e com a exatidão de suas medidas, sejam estas a quantidade de neurotransmissores em uma fenda sináptica, a intensidade do efeito Doppler que mostra o afastamento de corpos celestes ou uma simulação computadorizada da interação de duas espécies concorrentes em um terreno com recursos escassos. Quando esse mesmo cientista se aventura a discutir a validade epistemológica – ou seja, se o conhecimento que produz é válido – ele pisou no terreno da filosofia da ciência. Raras foram as vezes que os cientistas perceberam essa diferença crucial. A arrogância vive à espreita desses.

O resultado é levar para a filosofia a mesma confiança desmedida que nós ocidentais atribuímos à ciência. Basta dizer que algo é científico para que nossos ouvidos treinados ouçam "está confirmado com exatidão". Os sucessos da ciência são inegáveis, algo que me enche os olhos. Mas é preciso reconhecer que a ciência está muito longe de responder muitos de seus próprios questionamentos ou de superar a imprecisão. Então, por que tanta confusão?

Quando levado a extremos – só sei que nada sei – o ceticismo é seu próprio algoz: "Tal posição é estéril, improdutiva e quase ninguém a aceita". Ou seja, o cético hard-nosed precisa afrouxar as exigências a fim de conseguir espaço para pensar ou mesmo para pesquisar. Afirma que não há espaço para as vacas sagradas, mas eles mesmos abrem a porteira para algumas vacas que parecem ser sagradas – as tais hipóteses provisórias. Caso contrário seus esforços se provariam ineficientes e ficariam esvaziados de autoridade. Eles não querem ser vítimas da paralysis by analysis, mas comprometem a integridade de seus argumentos ao fazer isso. Mas estão esquecendo que essa atitude tira deles a confiança exagerada que têm em seu próprio ceticismo. Não é possível julgar uma parcialidade falando de dentro de outra parcialidade.

Por fim, a abordagem cética para a ciência não costuma reconhecer o naturalismo que se esconde por trás do argumento do "método". "Tudo o que de pode afirmar deve ser antes confirmado por métodos que aceitam exclusivamente causas naturais (ou materiais": essa idéia pode parecer científica, mas no fundo ela é uma posição filosófica, um a priori ou uma petição de princípio. Quem disse que apenas o naturalismo – ou o materialismo, seu irmão gêmeo – pode dar conta de toda a realidade? E se alguém fez tal afirmação, pode provar? É o que quero saber (talvez eu tenha nascido no Missouri e não sabia disso). "Quero ver primeiro" a prova de que o naturalismo dá conta de explicar tudo antes de eu me render à sua hegemonia no meio científico.

Não é irônico que um cristão, que acredita na Bíblia, em Deus e na criação, coloque em cheque o naturalismo da ciência usando as próprias armas do cético?

Eu adoro isso...



Escrito por Marson Guedes às 13h29
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O QUE É UM CÉTICO? 3 DE 5

 

Declaração que consta de todas as edições da revista Skeptic, veículo de comunicação da The Skeptics Society (link). A tradução é minha.


 

O que significa ser cético? Algumas pessoas acham que ser cético é rejeitar novas idéias, ou pior: elas confundem "cético" com "cínico" e acham que os céticos são um bando de ranhetas mal-humorados, sem qualquer inclinação para aceitar qualquer afirmação que vá contra o status quo. Isso está errado. O ceticismo é uma abordagem provisória diante das afirmações. É a aplicação da razão a toda e qualquer idéia – não há espaço para vacas sagradas. Em outras palavras, o ceticismo é um método, não uma posição. Em termos ideais, os céticos não conduzem investigações presos à possibilidade de que um fenômeno possa ser real ou que uma afirmação possa ser verdadeira. Dizer que somos "céticos" significa que precisamos ver evidências muito fortes antes de crermos em algo. Os céticos são do Missouri – o estado americano do "quero ver primeiro". Quando ouvimos uma afirmação fabulosa, nós dizemos: "Que legal. Prove-a".

O ceticismo vem de uma longa tradição histórica, que remonta aos gregos antigos. Sócrates observou: "Só sei que nada sei". Mas, se tomada literalmente, tal posição é estéril, improdutiva e quase ninguém a aceita. Se você for cético a respeito de tudo, terá que ser cético em relação ao próprio ceticismo. À semelhança de uma partícula subatômica radioativa, o ceticismo puro se desprega do átomo e gera um traço visível em nossa câmara úmida de Wilson(*).

O ceticismo moderno se personaliza no método científico, que envolve a coleta de dados para formular e testar explicações naturalistas para os fenômenos naturais. Uma afirmação passa a ser factual quando as confirmações são suficientes para gerar um mínimo de concordância temporária. Mas todos os fatos na ciência são provisórios e sujeitos a questionamento. Portanto, o ceticismo é um método que conduz a conclusões provisórias. Algumas afirmações, tais como a habilidade de achar água usando uma varinha mágica, percepção extra-sensorial e criacionismo foram testadas – e não passaram no teste – um número suficiente de vezes para concluir-se provisoriamente que elas não têm validade. Outras afirmações de fenômenos, tais como a hipnose, origem da linguagem e buracos negros foram testadas, mas os resultados não foram conclusivos. Assim, é preciso continuar formulando e testando hipóteses e teorias até que cheguemos a uma conclusão provisória.

O ponto principal do ceticismo é aplicar, de maneira contínua e vigorosa, os métodos da ciência para navegar nos estreitos traiçoeiros que ficam entre o ceticismo "nada sei" e a credulidade "qualquer coisa serve". Há mais de 300 anos o filósofo e cético francês, René Descartes, após uma dos expurgos céticos mais completos da história intelectual, conclui que de uma coisa ele tinha certeza: Cogito ergo sumI think, therefore I am – Penso, logo existo. Mas a evolução pode ter nos projetado para rumar em outra direção. Os humanos evoluíram para ser animais que buscam padrões recorrentes e que fazem inferências causais; fomos amoldados para encontrar relações significativas no mundo. Os que conseguiram fazer isso com mais competência foram os que geraram mais descendentes. Somos esses descendentes. Em outras palavras, ser um humano é pensar. Parafraseando Descartes:

Sum Ergo CogitoI Am Therefore I Think – Existo, logo penso.


 

(*) Câmara de Wilson: as partículas subatômicas não poder ser vistas a olhos nú, mas elas interagem com vapor de água se este estiver extremamente saturado e resfriado, formando riscos visíveis que evidenciam sua trajetória. A câmara de Wilson (cloud chamber) é uma câmara selada que contém esse vapor de água e é usada para detectar partículas subatômicas provenientes, por exemplo, de elementos radioativos. A existência do pósitron foi confirmada em 1932 usando-se uma dessas câmaras.



Escrito por Marson Guedes às 09h22
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O EMPATE NÃO É SUFICIENTE - 2 DE 5

 

Basta-lhe que as hipóteses céticas não sejam rejeitadas, isto é, sejam possíveis, para que seu raciocínio triunfe: o empate é sua vitória.

Plínio Junqueira Smith (Ceticismo, Jorge Zahar Editor, 2004, p. 26).

 

Quando comecei a me interessar por filosofia, eu me satisfazia em ler e tentar compreender o que aquele filósofo estava dizendo ou aonde sua argumentação estava me conduzindo. Mesmo aqueles que eram abertamente contra minhas crenças traziam essa satisfação, pois o desafio de rever meus conceitos sempre foi revigorante. Mas o prazer de ter domínio filosófico sobre uma proposta já não é mais o mesmo. Entender e refutar continuam sendo atividades indispensáveis às minhas reflexões, mas hoje são ofuscadas por minha vontade de afirmar.

É isso que me incomoda no ceticismo filosófico. De um lado temos o filósofo do senso comum, aquele que chuta uma pedra e acha que a pedra é real seu é pé é real, seus movimentos são reais, a intenção de chutar a pedra é real e, se estiverem descalços, a dor também será real. Afinal, tudo parece tão real que não há motivos para desconfiar que não passa de uma ilusão causada pelos sentidos.

Os filósofos céticos questionam a validade dessas afirmações. Dizem que não há como provar que a percepção da realidade - chutar a pedra - é a própria realidade. Afirmam que não há justificação possível para o que costumamos chamar de conhecimento do mundo - sentimentos próprios e de outras pessoas, uma mente própria e a mente de outras pessoas etc. O cético analisa as afirmações dos filósofos do senso comum dizendo: "Há várias alternativas para dizer o que é que realmente percebemos e, enquanto não excluírmos as alternativas apresentadas pelo crítico, não podemos afirmar nada com certeza" (p. 18, grifo no original).

É possível rejeitar a hipótese de que as percepções, que nos parecem tão reais, não passam de ilusões criadas por um demônio mal-intencionado ou por um super-computador que, ao enviar impulsos elétricos para nosso cérebro, faz que ele "sinta" que a pedra chutada é real? Não. É impossível rejeitar essa hipótese. Portanto, o cético se abstém de fazer qualquer juízo em relação à realidade e, por assim dizer, tira do filósofo do senso comum o direito de fazê-lo.

"Para o cético, a idéia mesma de uma justificação é altamente problemática e conduz a um impasse insolúvel" (p. 22, grifo no original). Assim, resta ao cético conformar-se - contentar-se? - com o empate.

Tal suspensão do juízo é insuficiente para mim.


 

O apóstolo João escreveu algumas palavras muito relevantes para esse embate sobre o que é real. Elas se encontram em 1João 1:1: "O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam - isto proclamamos a respeito da Palavra da vida". O contexto da passagem deixa claro que essa Palavra da vida é Jesus (compare com os primeiros versículos do evangelho de João). Se a proposta de João para a realidade for verdadeira, estou livre para descartar a hipótese cética.

Digo isso porque, para João, Jesus Cristo "era desde o princípio", ou seja, é eterno e tudo conhece. Se Cristo, o Deus tornado homem, se ofereceu para ser ouvido, visto, contemplado e apalpado, então essas percepções podem servir para justificar que nossos sentidos captam a realidade com alto grau de precisão a realidade, embora de maneira imperfeita.

Se Deus é o originador de tudo e Jesus veio em carne para nos mostrar quem Deus é, a própria idéia de ouvir, ver, contemplar e apalpar a realidade é legitimada. Assim, não é preciso mais duvidar que a pedra existe, que pode ser chutada e que vai doer se você chutá-la com os pés descalços. O mundo "volta" a ser o que sempre pareceu ser, agora liberto das hipóteses céticas.

É por isso que, na minha opinião, o empate cético é insuficiente e insatisfatório. A realidade pode sim ser percebida pelos sentidos, ainda que de maneira incompleta. E isso me basta: "Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos" (Atos 17:28). É assim que afirmo a realidade.



Escrito por Marson Guedes às 13h46
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CÉTICOS E CÉTICOS - 1 DE 5

 

Uma dose de ceticismo não faz mal a ninguém. A credulidade, simplista como é em seus julgamentos, soa aos meus ouvidos como um xingamento, um defeito da racionalidade que aceita as coisas como lhe parecem ser. "As aparências enganam", é o que dizemos. Parece ser verdade em relação aos fatos e às pessoas.

Os céticos costumam ter calafrios diante de afirmações universais. Em algum livro do Rubem Alves – não lembro qual – ele afirma que se sente diante de um inquisidor em potencial sempre que alguém lhe diz "Estou convencido que..." Quem é essa pessoa – ou qualquer outra pessoa – para ser dona da verdade?

O discurso religioso é um terreno especialmente fértil para a credulidade. Ouvi o R. R. Soares falar na televisão uma pérola digna de nota. Ele abriu a Bíblia no Novo Testamento – acho que era a carta que Paulo escreveu aos Efésios – e fez menção de que o sermão seria sobre um ou dois versículos dali. Qual não foi minha surpresa quando ele tirou da cartola de mágico ilusionista o seguinte raciocínio: "Irmãos, nós sabemos que nem tudo o que Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso está registrado na Bíblia. Ora, foi o Espírito Santo que iluminou Paulo para escrever aquela carta. É por isso que agora vamos pedir ao mesmo Espírito que nos revele aquilo que Paulo não escreveu...". A conclusão é rápida e certeira: o "missionário" usou um livro do Novo Testamento para dar início ao seu sermão, e isso daria credibilidade às suas palavras. Em seguida ele sorrateiramente incluiu uma observação sobre a incompletude do livro para então pedir que fosse revelado a ele os mistérios não escritos. Ora, o objetivo é um só: dar uma falsa capa de autoridade bíblica para aquilo que ele mesmo queria dizer. A honestidade com o texto que se lasque. E todo o povo ali sentado pareceu comprar aquela mensagem.

Usei meu ceticismo – "Será que é isso mesmo que está na Bíblia?" – e ele me forneceu uma blindagem contra a manipulação. Fiz certo. Pudera eu ver mais gente com a mesma atitude.

É sempre bom confiar desconfiando. Afinal, parece que sempre tem alguém querendo maquiar a verdade para tirar proveitos dos crédulos e incautos que povoam o mundo.


 

Como posição filosófica, o ceticismo afirma que não é possível justificar nenhuma verdade e nenhum conhecimento. Não é possível fazer nenhum julgamento de verdade, pois o contrário da verdade nunca pode ser provado. Converse com um cético versado em filosofia e ele vai, em poucos minutos, destruir todas a crenças que você considera mais preciosas. Você vai dizer que sua opinião tem lastro na realidade, mas ele vai retrucar que o bom senso não é um bom guia, pois você pode ser iludido até mesmo nas coisas mais elementares. Ele provavelmente dirá que não há como se certificar de que a percepção que você tem quando vê um objeto vermelho é a mesma de outra pessoa quando vê esse objeto do mesmo ângulo. Talvez na mente da outra pessoa o objeto seja azul, mas ela aprendeu a dar o nome de "vermelho" àquela cor. Os sentidos nos enganam. As cores mudam quando as condições de iluminação mudam, uma mesa redonda parece ser oval quando a olhamos na diagonal. Nada disso é um terreno firme para que a verdade floresça. Quem pode garantir que suas percepções, experiências e vivências não passam de informações ultra-complexas fornecidas por um super-computador, e que "você" não passa de um cérebro boiando em um líquido nutriente dentro de um balde, cheio de fiozinhos e conectores? Já sei, você pensou no filme Matrix, certo? Bem, essa parece ser a descrição do mundo segundo os irmãos Wachowski.

Pense no que isso significa para uma pessoa. E se aquele beijo apaixonado não passou de impulsos artificiais fornecidos ao seu cérebro boiante? E se aquela memorável noite de sexo nunca aconteceu de verdade? E se a alegria do seu cachorro quando te vê nunca existiu? E se tudo não passa de uma ilusão perpétua, da qual nunca conseguimos acordar? E se...

Se a ausência de ceticismo é o vício da credulidade, o exagero se parece mais com uma regressão infinita à incerteza.

Resta saber como os céticos extremados convivem com isso.


 

Nós vamos voltar a esses aspectos do ceticismo. Por enquanto quero dizer que sempre solto um risinho contido de satisfação toda vez que alguém menciona Tomé como o santo padroeiro dos céticos. Foi ele o discípulo que teve coragem de dizer o que possivelmente muitos estavam pensando: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei" (João 20:25). Havia muita coisa em jogo, ou seja, acreditar ou não que Jesus tinha ressuscitado dos mortos. Muitos estavam dizendo a mesma coisa, mas Tomé, que ainda não tinha visto Jesus, precisava mais do que isso para crer. Ele precisava tocar as evidências: as marcas dos cravos (um prego gigante, usado para prender malfeitores na cruz) nas mãos e nos pés, além da marca da lança do soldado romano que furou um dos lados do corpo de Jesus.

Meu risinho sardônico se deve ao fato de Tomé ter acreditado, pois Jesus ofereceu-lhe as evidências de que ele precisava, e o fez voluntariamente. Nada de sermões condenatórios, apenas as evidências para acalmar um coração atormentado pela dúvida. Jesus se contentou com uma leve repreensão: "Pare de duvidar e creia". E Tomé creu.

Se Tomé é o padroeiro dos céticos, parece que eles estão fadados a acreditar até mesmo que um homem que se dizia Deus pode voltar dos mortos, vencer a morte. Se o cético quer continuar cético, que arrume para si um padroeiro com final mais triste.

O ceticismo de Tomé o conduziu à fé. Mas fé em quem, ou em quê? Há uma realidade "sólida", por assim dizer?

É o que vamos discutir.



Escrito por Marson Guedes às 01h36
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SOBERANIA TEMPERADA PELA BONDADE - 3 DE 3

 

Continua no post abaixo


 

Tenho em mãos um dicionário de teologia, publicado pela editora Vida em edição de bolso. Foi organizado pelo trio Grenz, Guretzki e Nordling. Veja a definição do verbete soberania (p. 124):

Conceito bíblico do governo supremo e da autoridade legal de Deus como rei de todo o universo. A soberania de Deus é manifesta, exercida e revelada no plano divino da história da salvação e sua realização. É realçada sobretudo na tradição agostiniano-calvinista, em que é paradoxalmente contraposta à responsabilidade humana.

 

Penso que qualquer pessoa disposta a ler a Bíblia com cuidado e honestidade chegará conclusão de que Deus é soberano, pelo menos na ótica dos autores bíblicos. Não é preciso concordar com a Bíblia para reconhecer isso. O leitor honesto também testemunhará que, na Bíblia, soberania é o governo supremo e da autoridade legal de Deus como rei de todo o universo. É uma visão grandiosa, não há dúvida.

É bem fácil se perder no emaranhado de linhas que é a discussão sobre a soberania de Deus. Isso não é problema apenas para os cristãos que acreditam na Bíblia. Há muita gente que não é religiosa que, diante da desgraça, se pergunta "por quê?". Às vezes a pergunta vem acompanhada de um qualificador: "Por que, Deus?". Ouse dizer que esta pergunta resume em si o seguinte: "Se o Senhor pode tudo, Deus, então por que é que meu filho morreu, se eu pedi tanto para ele ser curado?". É uma excelente pergunta, normalmente suscitada no sofrimento. Mas trataremos das questões ligadas ao sofrimento outro dia.

Durante anos fiquei preso a essa questão, sem saber como sair dela. Foi então que essa nuvem se dissipou, bem no meio de uma reunião de trabalho com Ariovaldo Ramos e meu amigo Enéas. Resumindo, o Ariovaldo mostrou que o mais importante não é a soberania de Deus, mas sim seu caráter. Em outras palavras, isso significa que um Deus soberano e bom vai agir com bondade, e que um Deus soberano e maldoso vai distribuir maldade. A soberania não é o mais importante por que é o caráter de Deus que define como ele usará seu poder que a tudo abrange. E a Bíblia diz que Deus é bom: Pois o Senhor é bom, e o seu amor leal é eterno (Salmo 100:5).


 

A definição acima menciona a tradição agostiniano-calvinista. No meio protestante, especialmente no meio dos calvinistas, a discussão a respeito da soberania pega fogo. Há os calvinistas e há os hiper-calvinistas. Os calvinistas realçam a soberania de Deus, enquanto os hiper-calvinistas exageram a soberania de Deus. Como é possível exagerar a soberania de Deus se ela é completa e abrange tudo? Simples: basta pensar um pouco sobre o papel do homem nisso tudo.

Agostinho e Calvino enfatizaram, cada um a seu modo, a soberania de Deus. Também enfatizaram a responsabilidade humana. Isso é paradoxal, pois não é possível Deus definir absolutamente tudo o que acontece no mundo – incluindo o comportamento humano – e o ser humano ser responsabilizado por seus atos. Se a soberania de Deus é total, o ser humano é um autômato. Mas isso entra em conflito com a Bíblia, que reconhece plenamente a responsabilidade dos humanos: Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá (Gálatas 6:7). A Bíblia reconhece que as decisões humanas podem gerar destruição e vida, dependendo do que é semeado.

Este paradoxo é uma tremenda dor de cabeça. Quanto mais interesse você tiver no tema, mais dor de cabeça terá. Agora que o foco da discórdia está definido, vou dizer para você o que levei anos para entender. É perfeitamente possível Deus ser soberano e ainda assim respeitar a liberdade humana. Em primeiro lugar, Deus cria o ser humano e lhe concede a liberdade que gera a responsabilidade. É por isso que somos dignos, estamos brincando de verdade em vez de ficar como café-com-leite, ou seja, correr sem valer. Para fazer isso, Deus escolheu soberanamente se limitar para nos dar espaço. A Bíblia diz que Deus quer nosso amor como dádiva mais valiosa. Como pode haver amor se não houver liberdade? É de amor a declaração extraída à força? Claro que não.

Por que um Deus soberano se limitaria em favor da liberdade humana? Por que ele é bom.

Por que um Deus soberano e bom suportaria tantas bobagens que os humanos teimam em cometer? Por que o amor dele é leal.

Viu? A questão da soberania só se entende quando entendemos a bondade e o amor de Deus. É por isso que a limitação que Deus se impôs não arranha sua soberania. Não há paradoxo.

 


Post publicado pela primeira vez no dia 22 de maio de 2007, às 01h35.



Escrito por Marson Guedes às 23h09
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SOBERANIA TEMPERADA PELA BONDADE - 3 DE 3

 

Continuação do post anterior


 

Entendi melhor isso pensando em como os pais educam seus filhos. Quando eles são pequenos, demandam um cuidado muito próximo: eles não sabem ir ao banheiro, não se alimentam sozinho etc. Quando estão maiores, podem brincar em algum "parquinho" sob olhares atentos. Os pais guardam certa distância, mas a atenção está lá. Os pais estão se limitando para que seus filhos tenham espaço para crescer. Se eles caem e começam a chorar, o socorro vem de pronto. E quando os filhos são maiores, quando chega a hora de eles tomarem decisões, os pais abrem espaço e soltam suas crias. Podem inclusive ver que os filhos estão fazendo "burrada", mas deixam eles aprenderem sozinhos. Os pais se limitam para que os filhos tenham dignidade, ou seja, para que eles usem sua liberdade e arquem com as conseqüências.


 

Há enormes implicações filosóficas. A primeira se refere ao livre-arbítrio, a liberdade de fazer escolhas e ser responsabilizado por elas. O ser humano só tem dignidade nesta situação. Os humanos têm muita liberdade de ação e não podem ser considerados autômatos. Imagine o que aconteceria nos tribunais se os advogados não pudessem mais fazer seus clientes passarem por doente ou desequilibrados, vítimas indefesas de sua biologia? Quem passa por isso para se livrar da cadeia também perde a dignidade. Não sai de graça.

Outra implicação que muitos consideram indigesta é que nossa liberdade se mede por um padrão absoluto (absoluto é pecado em nossos dias; a simples menção da palavra causa arrepios). Para muitos isso significa uma prisão, mas aprendi a apreciar este absoluto moral como liberdade. É que ser medido diante de um padrão tão elevado dignifica o ser humano. Quando nos consideramos apenas um animal que reage a instintos primitivos, nós nos tornamos lentamente animais. Não escolhemos mais, pois os instintos fazem isso por nós. Não se admira que, por exemplo, o sexo seja tão banalizado hoje, tão insatisfatório mesmo para aqueles que a mídia oferece como padrão do "sexy".

Se não houver um padrão absoluto, cada um faz o que bem entende. Quando cada um faz o que bem entende, a conseqüência inevitável é "cada um por si". Mas em tempos de "salve-se quem puder", ninguém se salva.


 

Somos dignos, temos responsabilidade. E para os que se assustam com esta perspectiva, quero lembrar que Deus é bom e seu amor é leal.

Deus é soberano, mas soberanamente escolheu usar sua soberania em nosso favor. Isso me basta.

 


Post publicado pela primeira vez no dia 22 de maio de 2007, às 01h35.



Escrito por Marson Guedes às 23h07
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