Cristianismo - Religião



 
 

CRIME EXISTENCIAL

 

Por Ariovaldo Ramos (link).


 

Em Gênesis 3:15 Deus faz uma afirmação, da qual, nem sempre, nos damos conta: de que a inimizade da serpente seria para com a mulher.

A serpente configurava Satanás e a mulher configurava a Igreja, que traria Cristo ao mundo.

Mas, para além das configurações, que falam do enfrentamento da Igreja do Antigo e do Novo Testamento para trazer o Cristo, primeira e segunda vez; nesse texto, Deus reinventa a maternidade. O que era, apenas, a forma como nos multiplicaríamos, passou a ser a única esperança da humanidade. Duma gravidez especial viria o salvador. Toda a esperança da humanidade repousava no útero de uma mulher.

Mas a mulher pagaria um alto preço, teria como seu inimigo o anjo rebelde.

Os homens entrariam nessa briga por serem descendentes da mulher. Mas, a briga principal era com ela, para impedir a vinda do ungido.

Talvez, isso explique porque a vida da mulher tem sido um inferno em todas as culturas. Os homens, que deveriam ser aliados das mulheres, protegendo-as dos ataques do maligno, mudaram de lado e colaboraram com essa caçada por tempos perdidos na memória.

De todas as manifestações dessa tentativa de destruir a mulher, fazê-la prostituta, talvez, seja a pior. E, às vezes, se faz isso dentro do casamento, porque prostituição é mais do que troca de sexo por dinheiro, é o aviltamento da mulher – há culturas onde isso está institucionalizado por meio do harem - em outras pela poligamia – noutras pela permissão velada a profusão de amantes ou aventuras. E, também, se faz isso quando a mulher é convencida que sem sexo não há relacionamento possível.

Em qualquer tipo de prostituição a mulher não conta como ser humano, apenas como fonte de satisfação masculina: quanto mais serviçal, melhor! Ela não existe mais! O que existe é o macho em sua volúpia querendo satisfação plena e sem questionamento. E a única razão da existência da fêmea se sustenta em sua capacidade de dar prazer ao macho. Ela não vale pro si, vale por ele.

A gente não combate a prostituição como pecado moral, combate-a como crime existencial, porque a alma da mulher é devorada e o que resta é a sua capacidade de satisfazer a uns e enriquecer a outros: homens que a usam e exploram a seu bel prazer.

Os Céus revoltam-se, a prostituição amesquinha a mulher e insulta a Deus, que, com a mulher, fez um pacto especial, fazendo dela a portadora da esperança da humanidade, não só por trazer o Cristo, mas por ser, na maternidade que carrega no coração, a certeza de que Deus continua investindo na humanidade.



Escrito por Marson Guedes às 19h37
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MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 5 - FINAL

 

Igreja local – a fronteira final


 

Não precisava ter ido tão longe. Se eu queria me fartar com exemplos da graça incompreensível em ação, bastava ter olhado para dentro de casa, para as igrejas das quais participei. Na verdade, comecei a me perguntar qual era o caminho de Deus entre os homens olhando para as igrejas batistas nas quais dei a vida. Só então olhei retrospectivamente na tentativa de discernir melhor as coisas. Fui para a história da igreja com um bocado de perguntas, e voltei para o mesmo ponto com um bocado bem maior de perguntas.

O interessante é que, apesar de numerosas, as perguntas se encaixam em poucas categorias. Isso causou em mim uma frustração, pois esperava encontrar algum tipo de solução olhando para o passado do cristianismo. Por outro lado, as categorias de problemas discerníveis em todas as épocas não variam muito, indicando uma certa estrutura. Uma estrutura torta, mas ainda uma estrutura.

Se Deus consegue mover-se com sua graça em meio a esta estrutura toda torta – quer dizer, fazendo surgir salvação, cura e restauração – então este Deus é bem mais do que eu já achava que ele era. Se for assim, Deus é misteriosamente eficiente em seus passos, e isso é estranhamente reconfortante. Fico à vontade sabendo que ele está passando mesmo sem enxergar seus passos.

Exemplos? Basta-me um.

É 1990 e estou de volta a São Paulo após três anos morando no Rio de Janeiro. Voltei para fazer cursinho, entrar na faculdade e sair formado em psicologia. Queria também mudar minha atmosfera profissional. Estou de volta à igreja de onde saí quando rumei para as terras cariocas. Olho em volta em busca do que fazer e encontro: retomo meu trabalho no "som" da igreja e me aventuro a ser o líder dos adolescentes, abandonados à periferia da igreja.

Vou fazendo o que sei: ensinar a Bíblia sem ser chato, expor-me para eles verem que sou confiável e que estava disposto a defendê-los, ter uma conversa aqui e outra ali e coisas do gênero. Em seis meses eles estão comigo. A igreja os abandonou, eu os adotei, eles me aceitaram, e assim a gente caminhava.

Mais ou menos nessa época o clima na igreja mudou, os ares ficaram tomados por um conjunto de ações de reconstrução. A ideia era boa: o mote "reconstrução necessária" servia para falar da reconstrução espiritual da igreja e da reconstrução das dependências físicas da igreja. Gostei da proposta, mas estava alheio a ela. É o movimento veio de cima para baixo, e daí já se imagina o resto.

Em menos de três meses eu testemunhei o mais perverso movimento de troca artificial de liderança que já tinha testemunhado até aquela data. Os idealizadores do movimento viram que o líder de adolescentes tinha o péssimo hábito de ter opinião própria, e chegaram à brilhante conclusão de que precisavam de gente "deles" ali. Como não podiam simplesmente me destituir, forçaram a entrada de um casal "deles" para acompanhar o trabalho. Em três meses eu estava fora da liderança, e em mais três meses os adolescentes foram abandonados. O interesse "deles" e do casal era instaurar um programa de governo, não um programa de pastoreio. Em vez de reconstrução necessária, o saldo foi destruição arbitrária. Simples assim.

Restou perto de mim a molecada da banda. Eu passava bastante tempo com eles, tenho um saudosismo saudável em relação àquela época. Sem ter onde guardar os instrumentos, eles reformaram por iniciativa própria uma sala que só tinha entulho, onde se encontravam os refugos da decoração de natal dos últimos dez anos e outros entulhos menos nobres. Eles gastaram músculo, tempo e até mesmo dinheiro para cuidar da sala. Pintaram, colocaram carpete onde puderam, e lá ensaiavam. Era uma espécie de bat-sala, bastante aconchegante para os padrões de adolescentes que gostavam de usar camiseta preta e ouvir Iron Maiden.

Pois "eles" não foram atrás destes meninos? Claro, eles não tinham capitulado diante da tal reconstrução, e ainda contavam com meu apoio pessoal. Pediram a sala, alegando falta de autorização para seu uso. Os rapazes estavam lá havia meses, nunca ninguém na igreja se importara com eles. Alegaram que a sala sempre tivera outro destino, mas fazia anos que ali só tinha entulho. Quando finalmente conseguiram expulsá-los, a sala ficou trancada e não foi usada para nada. Viva a "reconstrução".

Nesta época coloquei pela primeira vez o dedo em riste na cara dos dementes que estavam conduzindo esta empreitada maquiavélica (os batistas tradicionais parecem ter nascido para isso, de tão bons que são). Tudo em nome de Deus, claro. "Não atrapalhe os planos de Deus, mocinho". Maquiavel ficaria lisonjeado de ser seguido com tamanha eficiência. E eu dizia "não reconheço sua autoridade, e você vai prestar contas disso". Tinha perdido minha inocência e nascido para a confrontação.

Já ia me esquecendo. Fizeram o mesmo no "som" da igreja, pelo qual eu era responsável. Infiltraram lá um boçal, mais que satisfeito em ganhar uma posição que nunca ocuparia por capacidade própria. E assim caminhou aquela igreja durante mais de ano.

Eu? Estou cheio de marcas cicatrizadas com o tempo, que ardem quando toco no assunto. Estou cheio de questionamentos, que muitas vezes fazem minha cabeça doer. Quase vinte anos se passaram, e eu ainda lembro de tudo. Infelizmente, a convivência nos bastidores da igreja me brindou com outros episódios, diferentes na superfície, mas semelhantes na tortuosidade. Mas por algum motivo misterioso continuo crendo, ativo e produtivo em favor de um Deus que normalmente me escapa à compreensão.

Aqueles adolescentes? Não faço ideia, mas sei que Deus tem plena capacitação para fazer por eles o que fez por mim.

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Guardadas as devidas proporções, encontrei o mesmo tipo de ocorrências quando examinei a história da igreja. Encontrei Constantino vigiando concílios que ele mesmo patrocinou. Encontrei o império romano procurando um jeito de submeter a igreja a seus interesses. Encontrei papas que mais se preocuparam com o poder temporal, encontrei reis que nomeavam bispos sem autorização da igreja. Encontrei sacerdotes que rezavam em latim e não sabiam o que estavam dizendo. Encontrei uma igreja que vendia indulgências, encontrei Lutero sendo usado como escudo para os senhores de terra massacrarem um levante de camponeses. Vi a Bíblia sendo vertida para o vernáculo, vi a diversidade de interpretações dividir a própria reforma. Vi os mais importantes reformadores se dividirem por causa da Ceia do Senhor, vi que a reforma em Genebra permaneceu mais "pura" por causa de sua independência política: a reforma em outras paragens deu oportunidades a disputas políticas e motivos para guerras. Vi gente bem intencionada, de coração sincero e piedoso, vi gente perversa e violenta. Vi bastante coisa estudando a história da igreja, muitas delas bem parecidas com as que vi nas igrejas das quais participei. É como se as igrejas locais fossem uma diminuta e variada amostra do que tem sido a história da igreja desde o primeiro século.

Eu não sei como Deus fez para navegar no meio de tanta sujeira, enganos ou mesmo boas intenções mal direcionadas. Eu sei que ele abriu seu caminho e salvou inúmeros, transformou outros tantos, e fez sua igreja durar até hoje. Minha fé preservada é prova disso.

Não me peça para explicar, não consegui domar este assunto mesmo aplicando todas as minhas intelectualidades e insistências por compreensão. Entretanto, sei que Deus passou com graça salvadora por onde eu não enxergo seus passos.

Tenho que aprender a viver com esta dimensão do mistério que minha mente só consegue tocar. É um mysterium tremendum. Já se disse que um Deus totalmente compreendido - domado, se preferir - não é um Deus que merece ser adorado. E, neste quesito, este Deus é aprovado com adoração e louvor.



Escrito por Marson Guedes às 02h09
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MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 4

 

A Reforma protestante – avanços notáveis e grandes constrangimentos


 

A gente se acostuma tanto com a ideia romântica da Reforma protestante que nem pensa que a Reforma poderia não ter acontecido. Pensamos em Lutero marchando resolutamente até os portões de Wüttenberg e desafiando os corruptos poderes eclesiásticos, pensamos em Calvino fazendo de Genebra uma cidade modelo, quase uma teocracia, pensamos numa Europa mais civilizada. Eu também pensava assim.

Foi com certo pesar que descobri a fragilidade desta interpretação histórica. Em primeiro lugar, o ato de Lutero pregar suas 95 teses nos portões de Wüttenberg – o estopim da Reforma – não foi um ato de desafio deliberado: era apenas uma maneira da época de convocar um debate teológico. Causar estardalhaço em Roma não estava nos planos do cioso monge agostiniano. Se Erasmo tivesse obtido sucesso na reforma interna que pretendia fazer na igreja romana, Lutero não teria causado o estardalhaço que não buscava causar. E, quando penso em Calvino, lembro-me das palavras de James Houston, para quem o protestantismo de Genebra só existiu de maneira mais pura porque foi uma cidade-estado politicamente forte, quase alheia às turbulências políticas européias. Não foi assim que eu aprendi, perdi minha inocência nos livros de história da igreja.

Na minha opinião, dois são os grandes avanços da Reforma: o entendimento de que a salvação vem pela graça, e a Bíblia no vernáculo. Convencionou-se chamar de "experiências na torre" as crises de Lutero abraçado com suas culpas e com sua Bíblia. Dizia-se naqueles dias que a salvação poderia ser perdida. Um dia ele desceu dali com o livro de Romanos aberto e certo da salvação que não mais precisaria conquistar. Nascia a bendita teologia da salvação pela graça. Anos depois, o texto grego que libertou Lutero estava vertido para o alemão corrente daquela época. A tradução de Lutero se juntou à imprensa de Gutemberg, e a Bíblia chegou à mão de todos.

Qual é melhor coisa da Reforma? A Bíblia ao alcance de todos. Qual foi a coisa mais temerária da Reforma? A Bíblia ao alcance de todos.

Cada pessoa que lê a Bíblia tem sua própria interpretação, seja ela adequada ou não. Muitas pessoas com a Bíblia na mão equivale é o mesmo que interpretações conflitantes, e isso inevitavelmente leva a divisões. Lutero causou a primeira e, com o tempo, o texto que ele traduziu causou as divisões subsequentes. Penso nessa babel interpretativa e me pergunto onde está a unidade da igreja. Se quisesse encontrar a unidade da igreja durante a Reforma, eu sei onde não procuraria: na opinião dos grandes reformadores a respeito da ceia (ou eucaristia, se preferir).

Este é para mim o maior constrangimento da Reforma: o sacramento que deveria trazer a unidade aos cristãos protestantes, realizado em memória de Jesus, foi o próprio motivo da separação. Lutero não conseguia concordar com a posição de Zuínglio, este retribuía a discordância, e Calvino adicionava outra posição conflitante ao jogo já duro demais. Mesmo havendo diversos esforços para que os três grandes concordassem sobre o tema, cada um foi para o seu lado, e cada lado levou junto seus próprios seguidores. Só Deus para calcular o prejuízo que esta divisão causou. E eu me pergunto onde está a unidade da igreja.

Faço esta pergunta, mas não sei a resposta. Na verdade, acho que não havia unidade, não o tipo de unidade que eu esperaria de uma época tão louvada nos meios protestantes. Agora que minha visão romântica sobre a Reforma se esvaiu, fico sem saber o que pensar, sem ter onde me agarrar.

Como é que Deus age em meio a tanta confusão, tantas opiniões diferentes, tantos interesses? Como é que os três grandes homens da Reforma vão cada um para o seu lado, sendo que a Bíblia deveria uni-los, e que essa união deveria ser celebrada nas ceias? Ora, eu não sei.

Eu não sei, e não fico à vontade com isso. Preciso de uma explicação, quero que as coisas façam sentido. Sei que Deus abriu um caminho em meio a tanta confusão, mas não consigo ver por onde ele passou. Deus não dá a impressão de que vai me explicar a situação. Não perco a fé por causa disso, mas o incômodo permanece. Enquanto isso, prossigo examinando a afronta que é a atuação dos cristãos no mundo. É só o que sei fazer. É o tamanho desta afronta que define o tamanho da graça, graça que permanece um mistério para mim.



Escrito por Marson Guedes às 11h38
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MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 3

 

Os concílios de Nicéia e Constantinopla: tudo certo para dar errado


 

Em 325 se realizou o concílio de Nicéia, o primeiro concílio universal da igreja. Constantino já era imperador do império romano e tinha adotado o cristianismo como religião oficial do estado: a perseguição dos imperadores anteriores tinha se transformado em patrocínio estatal. Nesse novo clima, havia dinheiro para construir templos e os sacerdotes tinham incentivos fiscais, ou seja, não pagavam impostos. Imaginando que a taxação de um império nunca é leve, era um incentivo e tanto. Estava aberta a temporada de caça às posições clericais que poucos anos antes eam sinônimo de tortura e martírio.

Constantino sabia que o império precisava de uma única teologia para manter o império unido. Naquela época era impensável separar o poder temporal do espiritual, as coisas tinham que andar juntas. Seguindo esse raciocínio, a teologia adotada pela igreja deveria ser recitada em uníssono, e era esta a expectativa do imperador que patrocinou esse primeiro concílio.

Nicéia tratou da Trindade, uma palavra que não aparece na Bíblia. O termo é uma descrição útil de uma doutrina vital para o cristianismo. Acreditar na Trindade significa acreditar no Deus Pai, no Deus Filho e no Deus Espírito Santo, e que estas três Pessoas coexistem e compartilham a mesma essência: são três Pessoas, mas entre elas há uma unidade perfeita, fazendo-as ser uma só. Foi esta a conclusão do concílio de Nicéia e que se tornou a ortodoxia. Ário, o herege daqueles dias, foi desacreditado por Atanásio, que jogou ao chão suas idéias de que o Filho era menor do que o Pai.

"Arisca" melhor palavra que encontrei para descrever a Trindade, especialmente quando nós tentamos compreendê-la nos detalhes. Ela é próxima o suficiente para compreendermos sua importância, seu papel determinante no cristianismo. Mas, quando tentamos nos aproximar para ver os detalhes, ela se vai para longe do nosso alcance, não importa o quanto tentamos trazê-la para um exame minucioso sob um microscópio. A Trindade manterá sempre sua dimensão de mistério. Já se disse que explicar a Trindade é o mesmo que explicar a sensação causada pelo cheiro de café para alguém que nunca tomou café.

A preocupação teológica atingia outros níveis no império, e era usada para justificar o equilíbrio de forças entre igreja e império. Se o Pai é igual ao filho, então o estado está em igualdade com a igreja. No entanto, se o Filho é menor do que o Pai, então o estado tem precedência sobre a igreja. Durma com um barulho desses.

Convocado 46 anos depois de Nicéia, o concílio de Constantinopla lidou com um problema diferente, embora relacionado. A heresia da vez foi o docetismo. Desde Nicéia o Filho tem a mesma essência do Pai, mas agora o que estava em jogo era a humanidade do Filho. O docetismo afirmava que Jesus não era carne e sangue como nós, era apenas uma aparência humana. Essa heresia foi combatida afirmando-se que Jesus precisava ser perfeitamente Deus para nos salvar, e precisava ser perfeitamente homem para que a salvação propiciada por sua morte pudesse nos incluir. Embora o docetismo não represente uma ameaça direta ao cristianismo, é possível distinguir sua influência em algumas representações de Jesus. Sempre que você se deparar com um desenho de Jesus com auréola, com uma aura a envolvê-lo e como se estivesse andando sobre uma nuvem acima do chão, você estará diante de um Jesus doceta, ou seja, apenas uma expressão humana e não um ser humano de carne e sangue que suja os pés no chão assim como nós.

Descrita a parte histórica, vem meu questinamento: como é que Deus age em meio a tanta bagunça? Convenhamos, o mais provável é que as coisas nestes dois concílios dariam dado errado. Fico pensando: como seria fazer teologia sabendo que o imperador está pagando as contas e olhando tudo bem de perto? Como seria fazer teologia sabendo que sua formulação a respeito da Trindade poderia ter profundas implicações políticas, tão determinantes quanto a conversão de Constantino ao cristianismo? Como seria fazer um concílio teológico em Constantinopla, a cidade que o imperador construiu para si mesmo? Quanto estrago causou uma igreja patrocinada pelo império? E quanto estrago a igreja causou por se preocupar mais com o poder temporal do que com o espiritual? Por assim dizer, quantas almas foram destruídas por essa máquina desalmada?

Faço-me ainda outra pergunta mais inquietante: quanto peso seria acrescentado à minha angústia se eu conhecesse melhor a história da igreja?

Eu não consigo discernir o rastro de Deus na história quando penso nesses eventos. Sei, no entanto, que ele abriu seu caminho. Caso contrário, nem estaria aqui, descrevendo-me como cristão que aceita a formulação destes concílios. Olho e não vejo, é tudo muito arisco. Então preciso abraçar o mistério de um Deus que não cabe na minha cabeça, que é maior do que meu intelecto. Eu me consolo com a ideia de que não sabemos, nem saberemos, tudo de Deus, mas que são verdadeiras as coisas que sabemos.

Creio que Deus é soberano sobre a história, e que ele exerce esta soberania em nosso favor. O resto? Mysterium tremendum.



Escrito por Marson Guedes às 12h07
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MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 2

 

A controvérsia judaizante


 

Olho para trás e fico com uma sensação que mistura surpresa e medo. Olho para trás e vejo quanta coisa não sei, a despeito da minha sanha pelo conhecimento. Terei que conviver com essa sensação até o fim. Pelo menos, essa é minha sensação.

Entre os temas que geram em mim este espanto reverente está a questão judaizante que tanto mobilizou a igreja primitiva, ainda novinha em seu primeiro século de vida.

A ideia não parece intuitiva, mas a igreja cristã do primeiro século era formada quase que exclusivamente por judeus praticantes. Jesus costumava ir às sinagogas ensinar, Pedro tinha uma missão de evangelizar os judeus, e Paulo, mais tarde conhecido como o apóstolo dos gentios, começou seu ministério turbulento pregando a seus compatriotas judeus. Para os romanos, sempre de olho nos judeus radicais, os cristãos eram uma seita judaica, não uma proposta religiosa distinta. Os cristãos eram chamados de "os do Caminho".

Enquanto tudo o que os judeus faziam era abraçar o Caminho e declarar Jesus como Senhor, a encrenca estava limitada à resistência dos judeus não convertidos. Era uma briga caseira, por assim dizer. A encrenca saltou para outra ordem de grandeza quando os gentios convertidos entraram em cena. Gentio é todo aquele que não é judeu.

Coloque-se no lugar destes judeus convertidos. Eles viveram a vida toda respirando o ar de uma religião com ritos elaborados, cheia de simbolismos ricos e abundante em promessas de redenção. O judaísmo é portador de uma lei e de um sistema de sacrifícios de animais muitos elaborados. Eles viram em Jesus o cumprimento das promessas de redenção, o ponto culminante de seu sistema de sacrifícios, o ápice de seu relacionamento com o único Deus verdadeiro. Sabendo que eram herdeiros de uma tradição milenar, e tendo recebido a iluminação em Jesus, você acha que eles estavam dispostos a ver os gentios dispensados de toda essa carga religiosa? Não, não estavam. Para eles, se um gentio quisesse pertencer ao Caminho, ele primeiro precisava se tornar judeu. É daí que vem o termo judaizante.

A principal missão de Paulo era levar o evangelho aos gentios, justo ele que era um judeu dentre os mais tradicionais e aplicados. Depois de compreender a graça de Deus que salva o homem, Paulo entendeu que nada dos rituais ou sacrifícios do judaísmo traria benefícios espirituais para os gentios. Assim, ele tirou da cena gentílica o Templo, os rituais e os sacrifícios, "vacas sagradas" para os judeus. Os gentios poderiam pertencer ao Caminho sem passar pelo estágio intermediário do judaísmo. Estava armada a confusão.

Essa controvérsia foi tão séria que tornou necessária a realização de um concílio em Jerusalém, centro nervoso do cristianismo. Pedro era o principal líder em Jerusalém, e naturalmente pendia para o lado dos judeus. Mas esta posição mudou depois de ter uma visão e de ver com os próprios olhos Deus atuando entre os gentios. Depois de muita discussão, o resultado do concílio foi isentar os gentios das obrigações religiosas dos judeus, e que estes observassem as seguintes recomendações: abster-se de comida sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Apesar de estas recomendações representarem aspectos da lei judaica, quem olhasse de fora não veria nenhum judaísmo implícito nestas recomendações. A cisão estava completada.

Eu bem que gostaria de dizer "a questão judaizante ameaçou dividir a igreja", mas acho que "a questão judaizante dividiu a igreja". Não houve volta, judeus cristãos não chegariam a trabalhar em conjunto pelo cristianismo com os cristãos gentios. Dentre as igrejas protestantes que conheço, algumas têm algum tipo de trabalho de evangelização dos judeus, mas judeu cristão e cristão gentio trabalhando lado a lado é coisa que nunca vi.

É importante notar que este cisma ocorreu numa época em que todos os apóstolo estavam vivos: aqueles que andaram com Jesus, e foram escolhidos por ele, poderiam opinar sobre a questão. Mesmo assim, o cisma ocorreu, uma ferida lastimável aberta dentro do cristianismo que já dura 2.000 anos. Nem mesmo os melhores foram capazes de evitar.

E eu me pergunto: o que será de nós? O que será da igreja?

É a este mistério da graça que me refiro. Como Deus consegue superar até as piores situações e alcançar os humanos por quem morreu? Eu não consigo enxergar um caminho para isso, e, no entanto, o caminho existe. É um mistério, mistério da graça, um mysterium tremendum.

Por isso afirmo que só enxerga bem a graça quem enxerga bem o tamanho da ofensa cometida, o tamanho da ferida aberta. É esse o combustível da minha estupefação reverente.



Escrito por Marson Guedes às 01h55
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MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 1

 

Preliminares necessárias: sobre minha sanha pelo conhecimento


 

O que agora escrevo porque é exigência do argumento. Para entender as perguntas é preciso entender algo sobre quem as formula. Por trás das perguntas irrequietas há uma alma sedenta por conhecimento, uma premência por encontrar sentido e regularidade na vida. Não há realidade sem Deus, é o que penso. Entretanto, não conheço à exaustão a realidade nem o Deus que a sustenta. Então me vejo forçado a conviver com a dimensão do mistério. O que se faz quando a sanha pelo conhecimento se encontra com a dimensão do mistério?

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Vez em quando me perguntam, com ar de surpresa, "Como você percebe essas coisas?" A pergunta se refere a algo que parece novo, profundo, como se um conhecimento reservado aos iniciados fosse aberto para o domínio público. Eu olho, dou uma risadinha por dentro, e pergunto "Como assim?" Não ligo para o elogio implícito na pergunta, ele não me corrompe. Aprendi, ensinei, alguém ficou feliz com o que aprendeu, e todo mundo vai dormir feliz. A batalha de verdade, a que chacoalha minhas entranhas, está longe dos holofotes.

Há duas correntes de pensamento que respondem à pergunta "Como você percebe estas coisas?". A primeira delas pressupõe que sou dotado de uma inteligência excepcional, de uma perspicácia incomum. Tem certo apelo intuitivo esta proposta. As principais proponentes desta escola são minha esposa e, é claro, minha mãe. "O amor tem feito coisas, que até mesmo Deus duvida..."

A segunda escola de pensamento afirma que isso não passa de força bruta inspirada pelo "água mole em pedra dura...". Para esta escola desprovida de romantismo, o que parece novidade ou espontaneidade é mera consequência do esforço, da ruminação do material a ser tratado. Leia muito, pense bastante, rumine as ideias, leia mais, pense ainda mais e, com alguns meses de fermentação, algo "novo" sairá, artificialmente colorido com uma cor de inteligência e perspicácia. O principal proponente desta escola sou eu.

Veja se não tenho razão. Quando resolvi escrever um livro sobre Jó, comecei fazendo minha lição de casa, que costumo chamar de adquirir intimidade com o texto. O roteiro incluiu copiar à mão todo o texto três vezes em três versões diferentes, ler o livro inteiro oito vezes, e ouvir o texto pelo menos doze vezes (vivas aos audiobooks). Agora imagine escrever duas vezes o mesmo livro, alterando radicalmente sua estrutura. Se o resultado final for bom, trouxer algo novo para o debate, ótimo. Mas não me diga que, depois de uma peregrinação como essa, o insight é fruto de uma mente brilhante. Não é. É fruto de uma sanha por adquirir conhecimento, por entender.

Esta abordagem me foi muito proveitosa ao longo dos anos. Aprendi muito, aprendi a questionar com cada vez mais precisão, sirvo melhor àqueles que se dispõem a aprender de mim. Mas...

Mas minha sanha por conhecimento não morre, quando muito amansa por pouco tempo. E na última vez que a sanha me atacou, fui lançado de volta àquilo que já soava familiar, que é a graça de Deus. A familiaridade com o tema faz a gente falar como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Foi então que percebi o seguinte: só entende o tamanho da graça quem entende o tamanho da ofensa. Só enxerga a perplexidade representada pela graça quem bem avalia o caos da história. Prossigo com minha sanha. E eu fiquei estupefato quando parei para pensar nisso.

É dessa minha estupefação com a história da igreja que surgiram os textos que se seguem.

(continua)



Escrito por Marson Guedes às 14h10
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EM BREVE NOS VEREMOS

 

Por Alexandre Robles (link).


 

Homenagem a Sandra Ferreira

 

A Sandra faleceu esta semana. Uma das lembranças que guardo é sua expressão de felicidade quando entendia algo a cerca do amor de Deus. Sempre incomodada, sempre em busca de alívio, sempre oscilando entre momentos de profunda fé e paz e de turbulência e medo.

Cada vez que alimentava sua fé com o amor de Deus incondicional ela suspirava aliviada e dizia "entendi", "entendi que Jesus me ama e é isso o que importa".

De fato é isso o que importa na vida, saber que somos alvo, prova e construção do Amor. Esse é o significado da existência.

Agora a Sandra está com o Pai, nele plenamente, ali ela está recebendo definitivamente a notícia que ansiou perenizar em sua experiência durante toda sua vida, o Pai a ama e estava esperando-a com acomodações bem bonitas e aconchegantes, para além de toda sua imaginação.

Em breve nos veremos.



Escrito por Marson Guedes às 12h26
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 7 - FINAL

 

Não aceito viver sem esperança

Sempre tem um momento em qualquer discussão apologética em que o discurso passa a ser pessoal, ou seja, passa do "isto não tem lógica" para o "eu não consigo aceitar". Esta expressão "não consigo aceitar isso" reflete apenas as convicções prévias do autor, e raramente há fundamento para tanto, seja factual ou lógico. É neste ponto que as disputas se acirram.

Antes eu me incomodava com isso, mas depois de me debater um bocado com o assunto, percebi que esse movimento que vai da argumentação para o terreno pessoal é coisa bem comum, própria do ser humano. Eu me dei conta que também faço isso. O melhor exemplo pessoal que posso dar é "não consigo aceitar as limitações impostas por uma cosmovisão naturalista", especialmente porque ela não oferece nenhuma esperança para a vida. Como não quero abrir mão da idéia da esperança, não consigo aceitar o naturalismo. Depois de tanto examinar evidências, a gente acaba por fazer opções deste naipe.

Veja que interessante uma dessas expressões no livro de Bart: "... tenho de admitir que a visão apocalíptica é baseada em idéias mitológicas que eu simplesmente não posso aceitar" (p. 227). A esta altura ele já discutiu longamente a visão dos "apocaliptistas" (achei este nome bem esquisito), ou seja, os textos bíblicos que tratam do futuro e de como um dia haverá uma transformação do mundo: "No cerne da resposta apocalíptica para o sofrimento está a idéia de que o Deus que criou este mundo vai transformá-lo" (p. 226). É esta a idéia que ele não aceita e, se depender da exposição que ele mesmo fez, acho mesmo que ele não deveria aceitar. Mas isso é outra história.

Há uma frase no contexto da literatura apocalíptica bíblica que muito me chamou atenção por sua parcialidade injustificada: "Mas não há Deus lá em cima, logo acima do céu, esperando para 'descer' aqui ou para nos levar lá para 'cima' " (p. 227). Fico pensando de onde ele tirou esta "informação". Fico também pensando se ele acha que eu engoliria este tipo de "argumentação". Como ele nem sabe que eu existo, deixei isso para lá.

Uma palavrinha sobre a literatura apocalíptica bíblica. Apocalipse evoca a idéia de um destino predefinido ao qual poucos têm acesso. O último livro da Bíblia em português se chama Apocalipse e é uma transliteração do grego para o português, ou seja, as letras do grego são simplesmente convertidas para nosso alfabeto, sem tradução. A Bíblia em inglês foi mais feliz, pois preferiu o nome Revelation, Revelação. A literatura apocalíptica se encontra em diversos livros do Novo Testamento, mas não está restrito a ele. A segunda metade do livro de Daniel é o exemplo mais notável no Antigo Testamento.

Textos apocalípticos costumam tratar do futuro em termos do confronto entre Deus as forças do mal. Após o embate - ou embates - Deus sempre vence, mas até a vitória final ser alcançada os fiéis a Deus sofrem, por assim dizer, o diabo nesta terra. Mas a vitória de Deus nunca é questionada, soa como se ela já tivesse sido decretada e está apenas esperando para se manifestar na história. Nada desse negócio de dois poderes iguais e opostos lutando pela supremacia do universo: a balança é desigual, enormemente pendida para o lado de Deus, que elimina o mal de maneira inconteste. Esta literatura está dirigida principalmente para um povo subjugado por uma força do mal de poder imenso. Basta pensar no povo de Israel debaixo do jugo babilônico ou do jugo romano. Para manter a esperança viva em dias assim, era preciso uma literatura que garantisse a vitória de Deus sobre o mal e que fosse críptica, simbólica, de maneira que o inimigo não compreendesse seu conteúdo reacionário.

Penso que Bart pegou o pior da interpretação apocalíptica e acabou chegando à seguinte conclusão: "Outro problema é que 'saber' que todas as coisas no final serão consertadas por uma intervenção pode levar a uma espécie de complacência social, a um interesse em lidar com o mal quando dos deparamos com ele aqui e agora, já que isso será enfrentado posteriormente por Alguém muito mais capaz de lidar com ele do que nós somos. Mas a complacência face ao sofrimento real certamente não é a melhor forma de lidar com o mundo e seus imensos problemas. Tem que haver um caminho melhor" (p. 228). Descobri que há tal caminho naquilo que chamo de esperança escatológica.

A lógica é simples e poderosa: "já que vocês (os destinatários dos escritos apocalípticos) sabem que a vitória esmagadora de Deus (o Alguém de Bart) já está decretada, vivam hoje de maneira digna desta esperança, fazendo o bem e se desviando do mal". E é assim que, excetuando o livro do Apocalipse, o restante dos escritos apocalípticos do Novo Testamento está entremeado em outros tipos de textos (o capítulo 24 do evangelho de Mateus é um belo exemplo).

Vislumbrei pela primeira vez a ligação entre a esperança escatológica - a certeza de que Deus vencerá o mal de maneira definitiva - lendo o livro de Tito. O capítulo 2 desta carta de Paulo a Tito é emblemático. A primeira parte do capítulo sugere diversas maneiras de conduta para diferentes grupos de pessoas e, portanto, é muito prática, nada etérea. Há palavras para Tito, para os idosos, as idosas, as mulheres mais novas, homens mais novos, para escravos e donos de escravos. Mas em que está ancorada esta praticidade construtiva que Bart não consegue enxergar? Na esperança de que seremos libertados de toda maldade: "Essa graça [de Deus] nos ensina abandonarmos a descrença e as paixões humanas e a vivermos neste mundo uma vida prudente, correta e dedicada a Deus, enquanto ficamos esperando o dia feliz em que aparecerá a glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo. Foi ele quem se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar de toda maldade e de nos purificar, fazendo de nós um povo que pertence somente a ele e que se dedica a fazer o bem" (Tito 2:12-14). Um povo que se dedica a fazer o bem é exatamente o que Bart procura e, por uma triste ironia, ele não encontrou esta solução nas páginas que eu e ele lemos.

A fórmula da esperança escatológica na Bíblica é simples e poderosa: se sabemos que um dia Deus nos libertará definitivamente de toda maldade, devemos viver hoje de maneira digna desta esperança. Não há sequer uma sugestão de que a esperança escatológica deva nos levar à "complacência face ao sofrimento real", independentemente de quem está sofrendo.

Com isso encerro minha resposta para meu amigo Bart, que trilhou muito dos caminhos e questionamentos sobre o sofrimento que eu trilhei. Andei pelos mesmos caminhos e fiz muitos dos questionamentos que ele fez, mas eu terminei do outro lado da margem porque, quando chegou a hora de tomar uma posição diante da vida, ele se desconverteu e eu fui afirmado em minha fé. Encontrei na esperança escatológica a garantia de que precisava para viver hoje sabendo que o mal será derrotado e que a morte será engolida pela vida. Onde Bart escorregou eu encontrei ânimo. Gosto mais da vista que tenho da minha margem do rio, e penso que saí ganhando. Não aceito viver sem esperança.



Escrito por Marson Guedes às 10h54
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 6

 

Uma crítica a certa crítica textual

Zeitgeist é uma palavra bonita para dizer "espírito de época", ou as coisas típicas em que uma determinada geração acredita. Como costuma ser o caso com as palavras alemãs, tudo isso fica encapsulado em uma só palavra. Tal precisão é uma das serventias da língua alemã: Zeitgeist.

Tem uma coisa muito curiosa com nosso Zeitgeist e que tem relevância para minha conversa com Bart, que é a confiabilidade do texto bíblico. Em nossos dias, basta a igreja - normalmente a igreja católica - rejeitar algum escrito para ele se transformar em campeão de credibilidade. O Vaticano considerou que o texto não é confiável? Então o texto é confiável. A onda dos evangelhos apócrifos - Madalenas, Judas e companhia - é a manifestação mais evidente desse nosso Zeitgeist que se considera instruído, mas que deixa a desejar na qualidade da reflexão.

Quer um exemplo? São vários e variados os questionamentos sobre a fidelidade do texto bíblico. A Bíblia foi inadvertidamente corrompida por copistas desleixados; a Bíblia foi convenientemente mudada para servir de apoio para as malévolas maquinações dos clérigos, mais interessadas na glória terrena do que na glória celeste. E a discussão fica rasa assim, como se isso fosse a única coisa relevante a se dizer sobre a fidelidade textual da Bíblia.

Quer um exemplo diferente? Quando foi a última vez que você ouviu alguém questionar a fidelidade do texto de Platão ou de outro importante texto da antiguidade? Eu nunca ouvi ninguém mencionar a possibilidade de corrupção dos textos filosóficos que chegaram até nós, embora não haja nenhuma razão para imaginar que filósofos e acadêmicos sejam menos corruptíveis do que os clérigos. É um rigor seletivo e equivocado.

E você fica se perguntando o que isso tem a ver com Bart.


 

Minha bronca tem a ver com o livro de Jó, ou melhor, abordagem da crítica textual que o Bart adotou ao tratar de Jó. Abra o livro na página 146, e lá pode-se ler duas frases logo no primeiro parágrafo: "A maioria das pessoas que lê Jó não se dá conta de que na forma que chegou a nós o livro é obra de pelo menos dois autores diferentes, e que esses autores tinham compreensões diferentes, e contraditórias, de por que as pessoas sofrem... São duas visões diferentes do sofrimento, e para compreender o livro temos que compreender suas duas mensagens distintas".

Aceito que um especialista no hebraico diga tal coisa - afinal, ele sabe muito mais do que eu – mas, caso sua argumentação ofenda o que julgo ser de bom senso, já não me sinto obrigado a aceitar sua avaliação. Ser especialista em hebraico não é o mesmo que ser um bom intérprete, assim como decorar um livro não significa entender sua mensagem. E é isso que Bart faz com o livro de Jó. Leia o próprio Bart (página 147):

As duas fontes que foram aglutinadas para criar o produto final são escritas em diferentes gêneros: uma narrativa popular em prosa e em conjunto de diálogos poéticos. Os estilos de escrita são diferentes entre esses dois gêneros... Finalmente, e o mais importante: a visão de por que o inocente sofre difere nas duas partes do livro: na narrativa em em prosa, o sofrimento é um teste para a fé; na poesia, o sofrimento permanece um mistério que não pode se compreendido ou explicado.

Acho despropositado dizer que o livro de Jó foi escrito por duas pessoas, especialmente quando o julgamento se baseia em estilo e proposta. Em outras palavras, diz-se que que são dois autores porque o estilo da escrita é diferente - Jó é um extenso poema encapsulado em curtos trechos de prosa - e porque a proposta é diferente - a parte em prosa parece firme e propositiva, e a parte em poema para caótica e apresenta mais perguntas do que respostas. Não deixa de ser uma idéia interessante, mas deve ser considerada com cuidado porque é frágil. É como dizer que o autor de uma texto poético por princípio não tem capacidade de escrever prosa, e que por princípio um autor de alta qualificação não consegue fazer um contraste entre um texto propositivo e outro misterioso para atingir seus objetivos.

Essa argumentação não suporta sequer um sopro de questionamento. Fernando Pessoa foi capaz de criar heterônimos e ninguém fica dizendo que cada um deles foi escrito por pessoas diferentes. É um preconceito da crítica textual que eu não compreendo ou aceito, e junto escoa com ele toda a interpretação desesperançada que Bart oferece. Se a fragilidade da proposta de Bart para o sofrimento é o caso geral, a fragilidade desta abordagem textual é o caso específico. É fragilidade demais para mim, muito barulho por quase nada.

Penso que Bart desconfia do texto sem necessidade, de certa maneira cedendo a nosso Zeitgeist que combina bem com sua desconversão. Quando ele adota uma tese tão frágil quanto a da dupla autoria, sua argumentação também fica frágil porque divide artificialmente aquilo que vai muito bem quando está conectado. O livro de Jó pulsa quando está unido em um só feixe, combinando estilos e balanceando propostas.

Esta é uma das diferenças entre mim e Bart, uma das das que colocaram na margem oposta da questão do sofrimento. Acho que saí ganhando.



Escrito por Marson Guedes às 20h01
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 5

 

Ele não sabe, eu também não

Encontrar uma resposta que satisfaça não é o mesmo que ter resposta para tudo. Aprendi logo que humildade é coisa sempre bem-vinda no debate sobre o sofrimento. Discordar de Bart não é mesmo que jogar fora todos os seus argumentos. Hoje é dia de falar sobre o desconhecimento que compartilho com Bart.

Sobre a tomada de Jericó, coisa que Deus ordenou a Josué, Bart diz: "O que importa na narrativa é que Deus queria que os filhos de Israel habitassem a terra, e para isso eles precisavam se livrar dos habitantes anteriores. Mas e quanto aos inocentes em Jericó, as garotas de dois anos de idade crescendo em seus pátios e seus irmãos de seis meses de vida? Assassinados ali. Para o Deus de Israel, evidentemente, isso não foi um pecado" (p. 95). Não sei responder a isso, porque isso me perturba. Bart não conhece os motivos para isso, eu também não.

Falando sobre o sofrimento imposto pela AIDS na África, Bart diz: "É não apenas homofóbico e odioso, mas também impreciso e inútil atribuir essa epidemia a preferências sexuais e promiscuidade – mas, para começar, por que a doença existe?" (p. 145). Não sei porque as doenças existem, muito menos como elas se encaixam no plano de Deus em que acredito. É perturbador. Bart não sabe, eu também não.

Bart está acostumado a pessoas que pensam ter resolvido o problema do sofrimento sacando o livre-arbítrio, como se fosse uma chave-mestra a abrir todos os mistérios. A resposta deve costuma ser: "Como eu esperava, ela [uma aluna] estava pronta e ansiosa para me dar ‘a’ resposta: ‘Há sofrimento’, disse ela, ‘porque precisamos ter livre-arbítrio, do contrário seríamos como robôs’. Eu fiz minha pergunta-padrão: se o sofrimento diz respeito apenas ao livre-arbítrio, como explicar furacões, tsunamis, terremotos e outras catástrofes naturais? Ela não tinha certeza, mas estava confiante de que tinha alguma relação com o livre-arbítrio" (p. 201). Eu não sei porque os acidentes naturais acontecem, e a simples existência deles me perturba. Bart não sabe, eu também não.

Não consigo imaginar nenhuma passagem bíblica que trate deste assunto. Mesmo que elas existissem, não tenho garantia de que as compreenderia. Com estas dúvidas, Bart me ajudou a lembrar da atitude apropriada para momentos assim, a posição adotada por Jó depois de questionar Deus e não obter resposta: "Quem é este que sem conhecimento obscureceo conselho? De fato falei do que não entendia, coisas que me eram maravilhosas demais e eu não compreendia" (Jó 42:3). E se Jó resolveu não falar nada, também não me pronunciarei, nem responderei com vento a perguntas que me perturbam.



Escrito por Marson Guedes às 13h18
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 4

 

Está faltando alguma coisa

Cristãos bem intencionados de vez em quando dizem que a Bíblia é um livro simples, direto: basta querer para entender. É bem fácil entender o que Jesus queria dizer quando disse "amem seus inimigos" ou "eu sou o pão da vida", mas é preciso bem mais tutano para entender o que significa "comer do meu corpo e beber do meu sangue", como relata João em seu evangelho. Tenho dito sempre que posso que a Bíblia não se abre para gente displicente. É preciso abraçar o texto, lutar com ele, debater-se com seu signifcado. Poucas exeperiências me são mais espirituais do que quando um texto bíblico se abre para mim, como se uma portal existencial tivesse se escancarado bem na minha cara.

Isso também vale para os profetas, aquele bando de homens malucos que diziam falar em nome de Deus, cada um com sua esquisitice característica. Eles sofriam por obedecer a Deus e, em escala muito reduzida, sentiam as mesmas angústias que Deus. Aparentemente Deus fazia seus profetas experimentarem a dor divina para então profetizarem na mesma nota triste as advertências, rejeição, juízo e promessa de redenção. Oséias é o exemplo arrematado deste estilo divino de lidar com os profetas.

Veja que situação. Deus chama Oséias para ser profeta e lhe diz para casar com uma mulher que não presta. Ele obedece, tem filhas com nomes depreciativos escolhidos pelo próprio Deus, e depois vê sua mulher infiel largar dele para ficar com outros. Então Deus pergunta "entendeu agora, Oséias, o que sinto em relação a meu povo?" E complementa: "vai agora e fala com conhecimento de causa, chama de volta sua mulher infiel do mesmo jeito que eu chamo de volta meu povo que me traiu".

Por mais que esta situação seja trágica para Oséias, ela ainda é bonita, é o sofrimento dos devotos, daqueles que amam a Deus mais o que a si mesmos. É o tipo de abnegação que se espera de profetas como Oséias. Não é uma beleza estética, evidentemente, mas uma beleza elevada, espiritual. Sou bastante sensível a este tipo de estética que leva consigo muita dor e uma redenção ainda maior do que a dor.

Nem tudo é assim tão belo. Assim como nos livros de outros profetas, o livro de Oséias está cheio de violência patrocinada pelo próprio Deus. Funciona assim: Deus promulgou sua lei, o povo desobedeceu, se encheu de violência e injustiça, Deus manda seus profetas para advertir sobre o julgamento, o povo ignora, Deus manda mais profetas com advertências mais veementes e, quando não tem mais jeito e a ferida é incurável, Deus traz seu povo a juízo. É em situações como essa que Deus faz exércitos de outros países se levantarem contra Israel para castigá-lo. O resultado são as atrocidades da guerra, vistas por todos, banho de sangue à luz do meio dia, da qual não escapam velhos, mulheres nem crianças. É uma cena repugnante, mesmo quando é apenas uma advertência. Abra o livro de Oséias, e mesmo uma olhada displicente vai tornar evidente o que digo.

Um dos grandes prazeres de ler o livro de Bart Ehrman é que ele tem suficiente intimidade com o texto para notar essa grosseria da violência patrocinada por Deus, ainda que seja com o objetivo de resgatar seu povo. A situação é crua, e é com crueza que ele a descreve. É uma das razões pelas quais o chamo de amigo.

Bart não consegue ler estes relatos sem se revoltar. Como é que Deus pode originar a violência da guerra para corrigir seu povo? Mesmo que isso seja justo, como ele pode permitir que mulheres, crianças e velhos morram inocentemente? Por que não manda matar só os culpados? Bart entrou nessa vala, e dela não saiu. Embora seus questionamentos me perturbem por causa da honestida e do sentido que fazem, eu me recuso a permanecer nessa vala, mais por teimosia do que por qualquer outra coisa. Tem que ter algo mais.

Eu acho mesmo que tem esse algo a mais. Deus sempre diz por meio de seus profetas que a última palavra não é o juízo nem os horrores da guerra: a última palavra é sempre de redenção. Bart cita as passagens certas dos profetas certos, mas notei uma ausência notável, exatamente uma referência no livro de Oséias que ele cita extensamente. Ele mencionou o juízo e os horrores da guerra, mas deixou de lado – conscientemente ou não – a que parece ser a mais pungente declaração de amor que Deus faz a seu povo: "Como posso desistir de você, Efraim[1]? Como posso entregá-lo nas mãos de outros, Israel?... O meu coração está enternecido, despertou-se toda a minha compaixão. Não executarei a minha ira impetuosa, não tornarei a destruir Efraim. Pois sou Deus, e não homem, o Santo no meio de vocês" (Oséias 11:8-9). Outra versão traz "Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, à uma, se acendem".

Por mais que admire Bart, não consigo ficar com a não-solução dele, uma vez que ele é preciso na hora de rejeitar e impreciso na hora de propor. Prefiro ficar com um Deus que nem sempre entra na minha cabeça, mas um Deus que, no fim das contas, quer mesmo é seguir suas compaixões, que se acendem todas de uma vez quando seu povo se aproxima da curva que não tem volta.

A ausência notável das divinas contorções compassivas no texto do Bart é o que abre um fosso entre mim e ele. Ambos temos inquietudes quanto às soluções de Deus para o sofrimento, mas eu permaneci abraçado a um Deus repleto de intenções redentoras.

 

[1] Efraim é uma maneira poética de se referir a Israel.



Escrito por Marson Guedes às 16h24
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 3

 

Banco de dois pés não pára em pé

Depois de uma certa idade, a gente começa a se irritar com as coisas que antes considerava desafiadoras ou temíveis. Foi o que aconteceu comigo com o tal do dilema entre Deus e o mal. É a velha formulação: "Considerando a existência do sofrimento, ou Deus é bom mas não é poderoso – ele quer acabar com o sofrimento mas não consegue –, ou Deus é poderoso mas não é bom – ele pode acabar com o sofrimento mas não o faz". Colocado desta maneira, o dilema continuará dilemático. É como um banco de dois pés que não pára em pé. Um pé é a bondade de Deus, o outro pé é seu poder. Optei por colocar mais um pé neste banco. Estava cansado da discussão estéril do banco de dois pés. O terceiro pé é a maldade humana, justamente o pé que Bart se recusa a colocar no banco. O banco caiu, e ele também.

Esta formulação do dilema me irrita porque coloca Deus em uma posição absoluta, e nos coloca em uma posição de vítimas arrematadas. Se Deus é bom e não é poderoso, a culpa do sofrimento é de Deus; a gente não sai na fotografia. Se Deus é poderoso e não é bom, a culpa do sofrimento é de Deus; a gente não sai na fotografia. Então, o que somos? Vítimas robotizadas nas mãos de um Deus manco. Que tal esta descrição? Você consegue se encaixar nela? Eu não, e fico irritado.

É por isso que não consigo imaginar a discussão sobre o sofrimento sem incluir na análise a responsabilidade do ser humano em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo (responsabilidade ecológica, se preferir outro termo). O ser humano é responsável pelo que faz, não apenas fruto deformado de um Deus manco e que quer o palco apenas para si. O dilema com dois pés apenas banaliza Deus e despreza nossas ações.

Por incrível que pareça, é a formulação de dois pés que o Bart adotou como bússola para seu trabalho. Abraçando esta formulação, a conclusão lógica é inevitável: este Deus manco não é digno de adoração, e a gente aqui embaixo vai fazendo que pode com tanta malignidade correndo solta, tal como o diabo gosta.

Algumas frases de Bart sobre este tema deixam entrever um certo desprezo por isso que se convencionou chamar de livre arbítrio. Ele tem duas saídas quando confrontado por esta possibilidade. Na primeira, ele pergunta como o livre arbítrio pode explicar catástrofes naturais – enchentes, tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas – que matam tanta gente e trazem sofrimento a outras tantas. Como o livre arbítrio não tem nada a dizer sobre este assunto, ele se dá por satisfeito e muda o rumo da conversa. Na segunda, ele simplesmente diz que o livre arbítrio não era nem de longe tão importante para os homens da Bíblia como é para nós, humanos pósmodernos. Admito que ele tem sua parcela de razão. O mundo dos homens da Bíblia é um mundo dominado por Deus, embebido nele, um mundo em que Deus não é visto mas é respirado. Mas...

...Bart não colocou na equação uma expressão que se repete ao longo da mesma Bíblia: Deus retribuirá aos homens segundo suas obras (veja Salmos 62:12, e a releitura desta passagem em Romanos 2:6). Homens da Bíblia, do Antigo e do Novo Testamentos, adotaram a visão de que Deus nos trata segundo o que fazemos. Pode ser que as categorias orientais de pensamento da Bíblia não usem a idéia de livre arbítrio tal como a usamos hoje, mas é certo que Deus leva a sério o que fazemos aqui.

A proposta de Bart para resolver o problema do sofrimento é manca porque não leva em consideração a maldade humana, o tal do terceiro pé do banco. Isso deixa de fora uma possibilidade maravilhosa, que é a redenção deste ser humano. Se é o humano que mata, trucida e tortura, só a transformação deste humano vai resolver o problema do sofrimento. E não é exatamente isto que a Bíblia propõe tantas vezes? Basta-me Jeremias, o profeta da minha predileção: "[Eu, Deus] Porei a minha lei no íntimo deles, e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao Senhor’, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior", diz o Senhor (Jeremias 31:33-34).

Se a lei de um Deus bondoso estiver escrita no íntimo do ser humano, e todos os humanos conhecerem à perfeição o mesmo Deus bondoso, não mais haverá malignidade na terra. O homem terá sido redimido, e junto com ele a terra. É por isso que eu me recuso a sentar no banco de dois pés que o Bart armou para mim: ele não fica em pé.



Escrito por Marson Guedes às 11h54
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 2

 

O problema não é a problemática, mas a solucionática

Fui direto para a conclusão, coisa que não é do meu feitio. Em vez de paciente e atentamente ler para captar o argumento do autor, eu quis logo saber qual era a solução que ele dava. Já li bastante coisa, pouco me impressionam as repetitivas discussões, fui saber a conclusão. Minha conclusão é que o problema do Bart é sua solução.

Sabe o que encontrei na conclusão? Que certo mesmo estava Salomão ao escrever o livro de Eclesiastes. O que especialmente? Que o sofrimento é aleatório, e que o certo é aproveitar o lado bom da vida (com certa tendência ao efêmero): assistir a uma bela partida de algum esporte que você gosta, aquela cerveja bem gelada que você adora, o chocolate divino que derrete em segundos na boca, a comida saborosa que enche a boca de água e de sabores. Vocâ sabe como a lista continua.

Tem outra solução que encontrei na conclusão, que é a disposição de consertar o que há de errado no mundo. Se juntos conseguíssemos arrumar uma maneira de erradicar a malária, providenciar saneamento básico e água potável para todos, muito sofrimento neste mundo teria fim quase imediatamente.

Curta o lado bom da vida, e lute para consertar o que há de errado no mundo: esta é a solucionática do Bart. Muito pouco, na minha opinião.

Entenda meu desconforto com esta proposta. Bart se desconverteu, deixou de ser pastor de jovens em uma igreja protestante para ser agnóstico, e hoje até aceita admitir a existência de Deus, embora lhe negue a devoção. Afinal, um Deus que deixa acontecer no mundo o que aqui acontece não é um Deus merecedor de louvor nem adoração, mesmo que exista. Ele matou dentro de si o mesmo Deus que continuou vivo dentro de mim.

O que ele pede de mim, então? Que eu me desconverta também? Sim. Basta eu acolher sua argumentação. Mas eu fiquei me perguntando se a proposta de Bart é forte o suficiente para me balançar. Não. Olhei com honestidade intelectual e sequer fiquei abalado.

Veja, para viver o lado bom da vida, e também lutar para consertar as coisas erradas que existem no mundo, não é preciso matar Deus dentro de si e optar pelo agosticismo. É perfeitamente possível – e lógico – seguir suas recomendações e permanecer cristão, daqueles que acreditam na Bíblia e, por causa disso, continuar acreditando que Deus é bom e todopoderoso.

Fiquei um tanto ultrajado com esta solucionática diante de uma problemática tão complexa e densa. Implícito no convite para adotarmos sua posição se encontra uma sugestão que me é de todo intolerável, a saber, de que devo abandonar um Deus amoroso e todopoderoso para abraçar o bom senso que Bart está me oferecendo. Ele rejeitou um Deus que controla a história e me ofereceu uma boa ideia. Inclusive, uma boa ideia que funciona muito bem obrigado mesmo acreditando em um Deus amoroso e todopoderoso.

Quem em sã consciência trocaria um Deus bom e todopoderoso por um par de boas idéias? Em última análise, seria deixar Deus de lado e optar pelo bom senso de Bart. Não dá. Seja qual for a solução para o problema do sofrimento abundante que existe neste mundo (mundo que parece ter sido esquecido por Deus), certamente não a encontraremos largando tudo para abraçar a mera opinião de um americano, por mais inteligente, questionador, sensível, sensato e boa gente que possa ser. Como estudioso ele se sai bem, tem boas contribuições para apresentar. Como fundamento último para que o bem vença o mal, ele sequer tem o direito de abrir a boca.

Assim, Bart matou Deus dentro de si, mas, se depender da qualidade de sua solução para o problema do mal, o mesmo Deus continuará vivinho da silva dentro de mim.



Escrito por Marson Guedes às 00h31
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OVO DE CHOCOLATE COM GOSTO DE LIBERDADE

 

Mantenho uma coluna no site da Ogeda IT Solutions (link), e desta vez escrevi sobre a Páscoa.

Vailá.



Escrito por Marson Guedes às 15h06
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É ASSIM MESMO

 

Por Stocker (link).

 



Escrito por Marson Guedes às 11h22
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