SOBRE ESSE NEGÓCIO DE PROVAR A EXISTÊNCIA DE DEUS - PARTE 2
Provado cientificamente é, na verdade, uma expressão forte demais. As pessoas costumam pensar que toda ciência é exata, com precisão de dez casas decimais, e que os achados científicos não podem ser questionados. Elas estariam certas se a natureza da evidência científica fosse a exatidão.
Percebeu a mudança de discurso? Estava falando da impressão injustificada de que a ciência é exata, incontestável, e usei, como quem não quer nada, a palavra evidência. Evidência é uma palavra menos contundente do que prova, mas ela é mais apropriada para a ciência. Obter evidências é um jeito de dizer "acúmulo de dados que sugerem uma interpretação compatível com uma determinada teoria". Tem outra expressão interessante, que é "evidências convergentes". Ela quer dizer "dados obtidos de diferentes áreas de pesquisa apontam para a validade de uma determinada teoria". Evidências convergentes são mais fortes do que evidências.
Vamos aos exemplos. Evidência é quando se descobre que o hemisfério esquerdo do cérebro é dominante para linguagem, e que o hemisfério direito é dominante para o processamento espacial e visual. Como se descobre um negócios desses? Estudando o caso de pessoas com lesões cerebrais, normalmente causadas por AVCs (acidente vascular cerebral), os famosos derrames. O resumo da ópera é que pessoas com lesão no hemisfério esquerdo do cérebro apresentam dificuldades com a linguagem, quer dizer, elas não conseguem falar direito ou não compreendem direito aquilo que ouvem, dependendo da localização e da extensão da lesão. Pessoas com lesão no hemisfério direito do cérebro apresentam dificuldades na hora de copiar desenhos e de montar cubos pintados de acordo com um modelo. Estas são as evidências, e esta é a interpretação destas evidências.
Por que estes dados não são provas, apesar de serem contundentes? Porque há muita variação entre o tamanho das lesões, de sua localização, da idade dos pacientes, das suas habilidades adquiridas antes da lesão, da origem da lesão e diversos outros fatores. Isso impossibilita um estudo preciso, e por isso os neurocientistas precisam trabalhar com evidências e não se dão ao luxo de chamá-las de provas.
Evidência convergente é quando se descobre que surdos sinalizadores apresentam o mesmo padrão de deficiências cognitivas em consequência de lesões no hemisfério esquerdo ou direito. Surdos sinalizadores são aqueles que usam preferencialmente a língua de sinais, que no Brasil se chama LIBRAS (língua brasileira de sinais). Estes surdos usam o espaço para sinalizar, eles processam os sinais e seus movimentos complexos usando a visão. Então, a primeira suspeita seria que o processamento linguístico dos surdos sinalizadores seria feito no hemisfério direito, que é especializado no processamento visual e especial. Certo? Não, não é assim que acontece. As pesquisas mostraram que o mesmo padrão ocorre nos surdos sinalizadores: eles apresentam problemas linguísticos quando a lesão é no hemisfério esquerdo do cérebro, e problemas visuo-espaciais quando a lesão está localizada no hemisfério direito. Eu acho isso impressionante, e mostra que o hesmifério esquerdo é dominante para linguagem independentemente da modalidade em que essa linguagem se apresenta (auditiva versus visuo-espacial).
Evidências convergentes são assim: elas vêm de áreas diferentes de pesquisa e apontam para a mesma direção, para a validade de uma determinada teoria.
No entanto, mesmo as evidências convergentes têm suas limitações, que são bem parecidas com as das evidências. Apesar de serem impressionantes, elas apontam para a mesma falta de imprecisão. As lesões nos surdos apresentam as mesmas complexidades apresentadas pelas lesões em ouvintes. Elas acontecem em lugares diferentes, têm tamanhos diferentes, e têm origem diferentes (AVC, acidentes de carro, tiros etc). Essas lesões não são diretamente comparáveis e, portanto, são evidências de alcance limitado e de difícil interpretação. É assim que caminha a neurociência. Agora a ciência não parece tão exata, parece?
Mais uma coisa: estes estudos do funcionamento do cérebro humano usam, sem exceção, a estatística para tirarem sua conclusões. São análises de variância, de contraste, análise multi-variadas, coisas que assustam os mortais só de pensar nelas. É importante observar isso, pois a estatística aplicada nestes experimentos trabalha com faixas de valor e determina se as faixas são significativamente diferentes entre si. Se a ciência fosse tão exata como se costuma pensar, ela não precisaria da estatística e trabalharia com valores absolutos.
Isso não depõe contra a ciência, a neurociência ou outros ramos de pesquisa. Longe disso. É a maneira árdua e lenta de a ciência avançar. É notável que, apesar destas dificuldades, a ciência avance.
É assim que a coisa funciona. Vamos tomar cuidado com a expressão "prova científica". Ela é um equívoco.
(continua)