SOBRE ESSE NEGÓCIO DE PROVAR A EXISTÊNCIA DE DEUS - PARTE 1
Ouvi dizer que as palavras não se dão ao respeito. É verdade.
Não culpe as palavras, o problema está com quem as usa. De fato, é bastante natural que as palavras não se respeitem ao ponto de permanecerem enrijecidas, inflexíveis. Palavra rígida demais é palavra morta. Não se admira que usem o latim para denominar as espécies animais – homo sapiens, por exemplo. O latim morreu, ninguém mais bole com aquelas palavras. Homo é sempre homo, sapiens é sempre sapiens, e ponto final.
"Causa-me espécie" é sinônimo de "causa-me estranheza", e nem por isso deixamos de captar em "Descobriram uma nova espécie de roedor" um outro significado da palavra "espécie". É uma palavra viva.
Dito isso, causa-me espécie o que se faz com a palavra "científico". Sei bem que preciso deixar esta palavra livre para se expandir e assumir novos significados, mas tem coisa que me parece exagero. Hoje usa-se "científico" para descrever o funcionamento de pranchas de alisamentos, para descrever a ação de cosméticos e para descrever os movimentos de artes marciais. "Funcionamento garantido cientificamente para alisar seus cabelos com o mais novo e revolucionário jato de íons"; "Hidratação e limpeza profundas – testado cientificamente"; "A magia das artes marciais explicada cientificamente"; e assim vai.
Meus queridos, "científico" precisa ter um significado mais profundo do que "comprovado", "garantido" ou "medido com muita precisão". Caso contrário, a coisa perde o sentido e o equívoco é inevitável. Por significar coisas demais, o termo passa a não significar muita coisa.
Assisti um especial da Discovery com a chamada "A ciência desvenda as artes marciais" ou coisa que o valha. Gostei do programa. Custou uma hora de sono, mas valeu a pena. Foram convidados campeões ou especialistas de cada modalidade: kung-fu, karatê, jiu-jitsu (era o brasileiro Royce Gracie), taekwondo, uns caras com espadas e outros com bastões. A estrutura do programa era pedir que os especialistas dessem golpes em um boneco de medições usados na indústria automobilística nos ensaios de impacto. O "científico" estava principalmente no boneco, que registrava com precisão os mais diferentes tipos de pancada. Só isso. Senti no ar uma intenção velada de determinar qual era o golpe mais mortal. Tudo "científico", bem apropriado para a televisão.
Pergunte-se: faz sentido medir com precisão alguma coisa sem saber o que se pode esperar daquela medição? Que informação traz o mais preciso luxímetro se você não sabe para quê está medindo a luminosidade? Precisão, por mais importante que seja no esquema geral das coisas científicas, não é suficiente para transformar medidas em conhecimento científico.
(continua)