MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 4
A Reforma protestante – avanços notáveis e grandes constrangimentos
A gente se acostuma tanto com a ideia romântica da Reforma protestante que nem pensa que a Reforma poderia não ter acontecido. Pensamos em Lutero marchando resolutamente até os portões de Wüttenberg e desafiando os corruptos poderes eclesiásticos, pensamos em Calvino fazendo de Genebra uma cidade modelo, quase uma teocracia, pensamos numa Europa mais civilizada. Eu também pensava assim.
Foi com certo pesar que descobri a fragilidade desta interpretação histórica. Em primeiro lugar, o ato de Lutero pregar suas 95 teses nos portões de Wüttenberg – o estopim da Reforma – não foi um ato de desafio deliberado: era apenas uma maneira da época de convocar um debate teológico. Causar estardalhaço em Roma não estava nos planos do cioso monge agostiniano. Se Erasmo tivesse obtido sucesso na reforma interna que pretendia fazer na igreja romana, Lutero não teria causado o estardalhaço que não buscava causar. E, quando penso em Calvino, lembro-me das palavras de James Houston, para quem o protestantismo de Genebra só existiu de maneira mais pura porque foi uma cidade-estado politicamente forte, quase alheia às turbulências políticas européias. Não foi assim que eu aprendi, perdi minha inocência nos livros de história da igreja.
Na minha opinião, dois são os grandes avanços da Reforma: o entendimento de que a salvação vem pela graça, e a Bíblia no vernáculo. Convencionou-se chamar de "experiências na torre" as crises de Lutero abraçado com suas culpas e com sua Bíblia. Dizia-se naqueles dias que a salvação poderia ser perdida. Um dia ele desceu dali com o livro de Romanos aberto e certo da salvação que não mais precisaria conquistar. Nascia a bendita teologia da salvação pela graça. Anos depois, o texto grego que libertou Lutero estava vertido para o alemão corrente daquela época. A tradução de Lutero se juntou à imprensa de Gutemberg, e a Bíblia chegou à mão de todos.
Qual é melhor coisa da Reforma? A Bíblia ao alcance de todos. Qual foi a coisa mais temerária da Reforma? A Bíblia ao alcance de todos.
Cada pessoa que lê a Bíblia tem sua própria interpretação, seja ela adequada ou não. Muitas pessoas com a Bíblia na mão equivale é o mesmo que interpretações conflitantes, e isso inevitavelmente leva a divisões. Lutero causou a primeira e, com o tempo, o texto que ele traduziu causou as divisões subsequentes. Penso nessa babel interpretativa e me pergunto onde está a unidade da igreja. Se quisesse encontrar a unidade da igreja durante a Reforma, eu sei onde não procuraria: na opinião dos grandes reformadores a respeito da ceia (ou eucaristia, se preferir).
Este é para mim o maior constrangimento da Reforma: o sacramento que deveria trazer a unidade aos cristãos protestantes, realizado em memória de Jesus, foi o próprio motivo da separação. Lutero não conseguia concordar com a posição de Zuínglio, este retribuía a discordância, e Calvino adicionava outra posição conflitante ao jogo já duro demais. Mesmo havendo diversos esforços para que os três grandes concordassem sobre o tema, cada um foi para o seu lado, e cada lado levou junto seus próprios seguidores. Só Deus para calcular o prejuízo que esta divisão causou. E eu me pergunto onde está a unidade da igreja.
Faço esta pergunta, mas não sei a resposta. Na verdade, acho que não havia unidade, não o tipo de unidade que eu esperaria de uma época tão louvada nos meios protestantes. Agora que minha visão romântica sobre a Reforma se esvaiu, fico sem saber o que pensar, sem ter onde me agarrar.
Como é que Deus age em meio a tanta confusão, tantas opiniões diferentes, tantos interesses? Como é que os três grandes homens da Reforma vão cada um para o seu lado, sendo que a Bíblia deveria uni-los, e que essa união deveria ser celebrada nas ceias? Ora, eu não sei.
Eu não sei, e não fico à vontade com isso. Preciso de uma explicação, quero que as coisas façam sentido. Sei que Deus abriu um caminho em meio a tanta confusão, mas não consigo ver por onde ele passou. Deus não dá a impressão de que vai me explicar a situação. Não perco a fé por causa disso, mas o incômodo permanece. Enquanto isso, prossigo examinando a afronta que é a atuação dos cristãos no mundo. É só o que sei fazer. É o tamanho desta afronta que define o tamanho da graça, graça que permanece um mistério para mim.