MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 3

 

Os concílios de Nicéia e Constantinopla: tudo certo para dar errado


 

Em 325 se realizou o concílio de Nicéia, o primeiro concílio universal da igreja. Constantino já era imperador do império romano e tinha adotado o cristianismo como religião oficial do estado: a perseguição dos imperadores anteriores tinha se transformado em patrocínio estatal. Nesse novo clima, havia dinheiro para construir templos e os sacerdotes tinham incentivos fiscais, ou seja, não pagavam impostos. Imaginando que a taxação de um império nunca é leve, era um incentivo e tanto. Estava aberta a temporada de caça às posições clericais que poucos anos antes eam sinônimo de tortura e martírio.

Constantino sabia que o império precisava de uma única teologia para manter o império unido. Naquela época era impensável separar o poder temporal do espiritual, as coisas tinham que andar juntas. Seguindo esse raciocínio, a teologia adotada pela igreja deveria ser recitada em uníssono, e era esta a expectativa do imperador que patrocinou esse primeiro concílio.

Nicéia tratou da Trindade, uma palavra que não aparece na Bíblia. O termo é uma descrição útil de uma doutrina vital para o cristianismo. Acreditar na Trindade significa acreditar no Deus Pai, no Deus Filho e no Deus Espírito Santo, e que estas três Pessoas coexistem e compartilham a mesma essência: são três Pessoas, mas entre elas há uma unidade perfeita, fazendo-as ser uma só. Foi esta a conclusão do concílio de Nicéia e que se tornou a ortodoxia. Ário, o herege daqueles dias, foi desacreditado por Atanásio, que jogou ao chão suas idéias de que o Filho era menor do que o Pai.

"Arisca" melhor palavra que encontrei para descrever a Trindade, especialmente quando nós tentamos compreendê-la nos detalhes. Ela é próxima o suficiente para compreendermos sua importância, seu papel determinante no cristianismo. Mas, quando tentamos nos aproximar para ver os detalhes, ela se vai para longe do nosso alcance, não importa o quanto tentamos trazê-la para um exame minucioso sob um microscópio. A Trindade manterá sempre sua dimensão de mistério. Já se disse que explicar a Trindade é o mesmo que explicar a sensação causada pelo cheiro de café para alguém que nunca tomou café.

A preocupação teológica atingia outros níveis no império, e era usada para justificar o equilíbrio de forças entre igreja e império. Se o Pai é igual ao filho, então o estado está em igualdade com a igreja. No entanto, se o Filho é menor do que o Pai, então o estado tem precedência sobre a igreja. Durma com um barulho desses.

Convocado 46 anos depois de Nicéia, o concílio de Constantinopla lidou com um problema diferente, embora relacionado. A heresia da vez foi o docetismo. Desde Nicéia o Filho tem a mesma essência do Pai, mas agora o que estava em jogo era a humanidade do Filho. O docetismo afirmava que Jesus não era carne e sangue como nós, era apenas uma aparência humana. Essa heresia foi combatida afirmando-se que Jesus precisava ser perfeitamente Deus para nos salvar, e precisava ser perfeitamente homem para que a salvação propiciada por sua morte pudesse nos incluir. Embora o docetismo não represente uma ameaça direta ao cristianismo, é possível distinguir sua influência em algumas representações de Jesus. Sempre que você se deparar com um desenho de Jesus com auréola, com uma aura a envolvê-lo e como se estivesse andando sobre uma nuvem acima do chão, você estará diante de um Jesus doceta, ou seja, apenas uma expressão humana e não um ser humano de carne e sangue que suja os pés no chão assim como nós.

Descrita a parte histórica, vem meu questinamento: como é que Deus age em meio a tanta bagunça? Convenhamos, o mais provável é que as coisas nestes dois concílios dariam dado errado. Fico pensando: como seria fazer teologia sabendo que o imperador está pagando as contas e olhando tudo bem de perto? Como seria fazer teologia sabendo que sua formulação a respeito da Trindade poderia ter profundas implicações políticas, tão determinantes quanto a conversão de Constantino ao cristianismo? Como seria fazer um concílio teológico em Constantinopla, a cidade que o imperador construiu para si mesmo? Quanto estrago causou uma igreja patrocinada pelo império? E quanto estrago a igreja causou por se preocupar mais com o poder temporal do que com o espiritual? Por assim dizer, quantas almas foram destruídas por essa máquina desalmada?

Faço-me ainda outra pergunta mais inquietante: quanto peso seria acrescentado à minha angústia se eu conhecesse melhor a história da igreja?

Eu não consigo discernir o rastro de Deus na história quando penso nesses eventos. Sei, no entanto, que ele abriu seu caminho. Caso contrário, nem estaria aqui, descrevendo-me como cristão que aceita a formulação destes concílios. Olho e não vejo, é tudo muito arisco. Então preciso abraçar o mistério de um Deus que não cabe na minha cabeça, que é maior do que meu intelecto. Eu me consolo com a ideia de que não sabemos, nem saberemos, tudo de Deus, mas que são verdadeiras as coisas que sabemos.

Creio que Deus é soberano sobre a história, e que ele exerce esta soberania em nosso favor. O resto? Mysterium tremendum.



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