MYSTERIUM TREMENDUM - PARTE 1
Preliminares necessárias: sobre minha sanha pelo conhecimento
O que agora escrevo porque é exigência do argumento. Para entender as perguntas é preciso entender algo sobre quem as formula. Por trás das perguntas irrequietas há uma alma sedenta por conhecimento, uma premência por encontrar sentido e regularidade na vida. Não há realidade sem Deus, é o que penso. Entretanto, não conheço à exaustão a realidade nem o Deus que a sustenta. Então me vejo forçado a conviver com a dimensão do mistério. O que se faz quando a sanha pelo conhecimento se encontra com a dimensão do mistério?
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Vez em quando me perguntam, com ar de surpresa, "Como você percebe essas coisas?" A pergunta se refere a algo que parece novo, profundo, como se um conhecimento reservado aos iniciados fosse aberto para o domínio público. Eu olho, dou uma risadinha por dentro, e pergunto "Como assim?" Não ligo para o elogio implícito na pergunta, ele não me corrompe. Aprendi, ensinei, alguém ficou feliz com o que aprendeu, e todo mundo vai dormir feliz. A batalha de verdade, a que chacoalha minhas entranhas, está longe dos holofotes.
Há duas correntes de pensamento que respondem à pergunta "Como você percebe estas coisas?". A primeira delas pressupõe que sou dotado de uma inteligência excepcional, de uma perspicácia incomum. Tem certo apelo intuitivo esta proposta. As principais proponentes desta escola são minha esposa e, é claro, minha mãe. "O amor tem feito coisas, que até mesmo Deus duvida..."
A segunda escola de pensamento afirma que isso não passa de força bruta inspirada pelo "água mole em pedra dura...". Para esta escola desprovida de romantismo, o que parece novidade ou espontaneidade é mera consequência do esforço, da ruminação do material a ser tratado. Leia muito, pense bastante, rumine as ideias, leia mais, pense ainda mais e, com alguns meses de fermentação, algo "novo" sairá, artificialmente colorido com uma cor de inteligência e perspicácia. O principal proponente desta escola sou eu.
Veja se não tenho razão. Quando resolvi escrever um livro sobre Jó, comecei fazendo minha lição de casa, que costumo chamar de adquirir intimidade com o texto. O roteiro incluiu copiar à mão todo o texto três vezes em três versões diferentes, ler o livro inteiro oito vezes, e ouvir o texto pelo menos doze vezes (vivas aos audiobooks). Agora imagine escrever duas vezes o mesmo livro, alterando radicalmente sua estrutura. Se o resultado final for bom, trouxer algo novo para o debate, ótimo. Mas não me diga que, depois de uma peregrinação como essa, o insight é fruto de uma mente brilhante. Não é. É fruto de uma sanha por adquirir conhecimento, por entender.
Esta abordagem me foi muito proveitosa ao longo dos anos. Aprendi muito, aprendi a questionar com cada vez mais precisão, sirvo melhor àqueles que se dispõem a aprender de mim. Mas...
Mas minha sanha por conhecimento não morre, quando muito amansa por pouco tempo. E na última vez que a sanha me atacou, fui lançado de volta àquilo que já soava familiar, que é a graça de Deus. A familiaridade com o tema faz a gente falar como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Foi então que percebi o seguinte: só entende o tamanho da graça quem entende o tamanho da ofensa. Só enxerga a perplexidade representada pela graça quem bem avalia o caos da história. Prossigo com minha sanha. E eu fiquei estupefato quando parei para pensar nisso.
É dessa minha estupefação com a história da igreja que surgiram os textos que se seguem.
(continua)