NEM TODOS OS HERÓIS MORREM DE OVERDOSE
Estava mesmo precisando de uma desculpa para escrever sobre o Eric Clapton. A morte de Michael Jackson foi o primeiro passo que, por sua vez, trouxe à memória a morte trágica de Elvis Presley. O rei do pop se encontrou com o rei do rock, e talvez alguma mente criativa e benigna diga que eles estão "tirando o maior som" lá no céu dos reis dos gêneros musicais. Talvez. Tomara. Já imaginou a cena do MJ ensinando o EP a fazer o moonwalk enquanto toca violão e mexe o topete? Se dependerem do estado em que se encontravam quando a morte os encontrou, eles não terão muito o que comemorar. Um estava rico, gordo, feio até, cheio de drogas e álcool na cabeça, improdutivo e sem criatividade. O outro desfigurado, uma caricatura de mau gosto, rico, cheio de esquisitices, rumores de outros tipos de drogas, acusado de pedofilia, improdutivo e sem criatividade. Se os reis do pop e do rock servem de exemplo, quantidades generosas de dinheiro, fama, sexo, drogas, pop e rock'n roll também podem ser letais. MJ e EP foram chamados de reis por bons motivos. A morte deles me deixa hoje com um gosto amargo de derrota: mesmo sendo reis, mesmo deixando um legado preciosíssimo, eles foram menores do que a vida. Por isso a morte os encontrou feios, deformados, arremedos de si mesmos. Quanta diferença com o Eric Clapton, já com mais de 60 anos. Ninguém o chamou de rei em sua longeva carreira de guitarrista de blues e rock. Quando resolveram atribuir-lhe um título, alguém pichou num muro que ele era Deus. Meus pruridos cristãos me impedem de usar o dê maiúsculo, mas entendo bem a homenagem. [Dizem que] Eric Clapton é deus: assim dá para encarar. Assistindo muitos de seus shows mais recentes, comecei a notar coisas muito interessantes. Clapton faz muitas referências a seu estado lastimável quando seu cérebro vivia encharcado de álcool com uma cobertura de pó. Ele já disse que tinha as mulheres mais lindas, uma carreira de sucesso, fama, todo dinheiro que queria, mas acordava sem saber o que tinha feito na noite anterior e uma angústia de fazer querer morrer. Quando ele fala, parece que estou ouvindo alguém confessar seu pecado, mostrar que encontrou um novo caminho e mostrar sua nova vida restaurada. Talvez seja isso mesmo em sua versão secular. Certo é que ele se livrou disso tudo. Há quem considere esse negócio de álcool e drogas uma espécie de aura mística dos gênios. Clapton sabia que estas coisas o estavam matando. Depois de se limpar, ele resolveu que ajudaria também outras pessoas a sairem desta escravidão. Foi assim que nasceu o Crossroads Centre, em Antigua, uma ilha caribenha. Tudo o que assisti dele tem essa marca distintiva: Eric Clapton tocando como nunca - ou como sempre, se preferir - ao lado de feras de todas as idades, usando o dinheiro resultante para bancar um centro de recuperação de alcoólatras e viciados como ele era. Ele fala do Crossroads Centre, e diz que muitos de seus ídolos ainda estariam vivos se pudessem contar com este recurso. É um homem 20 ou 30 anos mais novo do que B.B. King, mas um homem que este King respeita, chamando-o de "o melhor homem que eu já conheci". E Clapton não é apenas um anônimo, ele é Eric Clapton, aquele que toca Layla, I Shot the Sheriff, Cocaine, Wonderful Tonight, Goin' Down Slow e aquela fantástica versão de Over the Rainbow, que ouvi ao vivo no estádio do Pacaembu. Tem mais. Quando ele toca, costuma vir junto com ele a bateria do Steve Gadd, o baixo de Nathan East e o órgão Hammond do saudoso Billy Preston, e estou mencionando unicamente os nomes que sei de cor. Ele brilha, e com ele muita gente brilhante brilha também. Em um dos Crossroads Guitar Festival - desses para levantar uma grana para o centro de recuperação em Antigua - ele juntou John Mayer, Steve Vai, Buddy Guy, Eric Johnson, Robert Randolph, só para ficar nos nomes que sei de cor. Clapton poderia continuar afogando seu cérebro no álcool, revestindo-o de pó, que a mídia e os fãs sempre o perdoariam, e até enalteceriam essa mórbida aura do gênio que se destrói. Fizeram isso com EP e MJ. Mas Clapton venceu tudo isso, continua sendo genial, trabalha muito para ajudar outros a vencerem o vício e, para onde quer que se olhe, coisas boas acontecem em torno dele. Os perturbados reis mortos do pop e do rock que me perdoem: Eric Clapton é tão gênio quanto vocês na música, e muito mais gênio na vida. Se vocês são reis póstumos, ele é deus em vida.
Escrito por Marson Guedes às 01h35







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