ELE NÃO PODIA TER FEITO ISSO
Por Gustavo Duarte (link).

Sob qualquer ângulo, a morte de Michael Jackson é algo a ser lamentado. Para mim é lamentável porque morreu o cara de Babe be mine, Thriller (quem esquece daquela risada do Vincent Price?), Beat It! (quem se esquece do solo de guitarra do Eddie Van Halen?) e Billie Jean. Passaram 25 anos do álbum Thriller, e ainda acho as músicas ótimas de ouvir, arranjos e tudo.
Para mim também é lamentável o estado em que ele morreu. Via o último Michael Jackson e via um arremedo de gente com aquele rosto deformado. O tamanho da deformação da alma, que levou à deformação do rosto, só se pode especular.
Assisti algumas manifestações de pesar na televisão Chamou minha atenção um fã de carteirinha dizendo "ele nos ensinou a continuar vivendo, a não desistirmos nunca". Acho que essa música eu não ouvi.
Confesso que fiquei com raiva, dizendo para mim "ele não poderia ter feito isso". Com a vida de excentricidades que levou, ele me privou de seu talento. As músicas e danças que só ele poderia ter criado morreram com ele. Fiquei sem.
"Ele não poderia ter feito isso", pensei para mim, já num tom de moral: fiquei abismado com o número de pessoas que o queriam imitar, que enxergaram nele um modelo a ser seguido. E aqui minha irritação é maior. O que me veio à mente repetidamente é "com tanta gente a imitá-lo, a tomá-lo por padrão, ele não tinha o direito de viver do jeito que bem entendesse, jogando fora sua identidade e talento".
Jackson ou não, creio que não podemos viver de qualquer jeito. Há pessoas olhando para nós. Penso nisso e sinto medo do admirador manipulador. Penso nisso e fico com ainda mais medo de não servir de exemplo. Hoje há quem olhe para mim pedindo cuidado pastoral, psicológico. Hoje há quem queira aprender comigo a escrever melhor. Hoje há quem sinta a prensa da angústia intelectual que cinde a espiritualidade da intelectualidade e que pode conversar comigo. E eu devo a todas estas pessoas o meu melhor. O admirador doente deve ser tratado energicamente como a exceção que é.
Quando eu morrer, não quero ser alvo de especulações sobre drogas, quero ter ajudado muita gente a alcançar seu potencial, quero ter chegado à altura de um ser humano que viveu para si e também para outros.
Estou inconformado com o desperdício que a vida de Michel Jackson representou, ele poderia ter dado muito mais ao mundo e a seus seguidores. Bom motivo para botar as barbas de molho e não seguir seu exemplo.