Não aceito viver sem esperança
Sempre tem um momento em qualquer discussão apologética em que o discurso passa a ser pessoal, ou seja, passa do "isto não tem lógica" para o "eu não consigo aceitar". Esta expressão "não consigo aceitar isso" reflete apenas as convicções prévias do autor, e raramente há fundamento para tanto, seja factual ou lógico. É neste ponto que as disputas se acirram.
Antes eu me incomodava com isso, mas depois de me debater um bocado com o assunto, percebi que esse movimento que vai da argumentação para o terreno pessoal é coisa bem comum, própria do ser humano. Eu me dei conta que também faço isso. O melhor exemplo pessoal que posso dar é "não consigo aceitar as limitações impostas por uma cosmovisão naturalista", especialmente porque ela não oferece nenhuma esperança para a vida. Como não quero abrir mão da idéia da esperança, não consigo aceitar o naturalismo. Depois de tanto examinar evidências, a gente acaba por fazer opções deste naipe.
Veja que interessante uma dessas expressões no livro de Bart: "... tenho de admitir que a visão apocalíptica é baseada em idéias mitológicas que eu simplesmente não posso aceitar" (p. 227). A esta altura ele já discutiu longamente a visão dos "apocaliptistas" (achei este nome bem esquisito), ou seja, os textos bíblicos que tratam do futuro e de como um dia haverá uma transformação do mundo: "No cerne da resposta apocalíptica para o sofrimento está a idéia de que o Deus que criou este mundo vai transformá-lo" (p. 226). É esta a idéia que ele não aceita e, se depender da exposição que ele mesmo fez, acho mesmo que ele não deveria aceitar. Mas isso é outra história.
Há uma frase no contexto da literatura apocalíptica bíblica que muito me chamou atenção por sua parcialidade injustificada: "Mas não há Deus lá em cima, logo acima do céu, esperando para 'descer' aqui ou para nos levar lá para 'cima' " (p. 227). Fico pensando de onde ele tirou esta "informação". Fico também pensando se ele acha que eu engoliria este tipo de "argumentação". Como ele nem sabe que eu existo, deixei isso para lá.
Uma palavrinha sobre a literatura apocalíptica bíblica. Apocalipse evoca a idéia de um destino predefinido ao qual poucos têm acesso. O último livro da Bíblia em português se chama Apocalipse e é uma transliteração do grego para o português, ou seja, as letras do grego são simplesmente convertidas para nosso alfabeto, sem tradução. A Bíblia em inglês foi mais feliz, pois preferiu o nome Revelation, Revelação. A literatura apocalíptica se encontra em diversos livros do Novo Testamento, mas não está restrito a ele. A segunda metade do livro de Daniel é o exemplo mais notável no Antigo Testamento.
Textos apocalípticos costumam tratar do futuro em termos do confronto entre Deus as forças do mal. Após o embate - ou embates - Deus sempre vence, mas até a vitória final ser alcançada os fiéis a Deus sofrem, por assim dizer, o diabo nesta terra. Mas a vitória de Deus nunca é questionada, soa como se ela já tivesse sido decretada e está apenas esperando para se manifestar na história. Nada desse negócio de dois poderes iguais e opostos lutando pela supremacia do universo: a balança é desigual, enormemente pendida para o lado de Deus, que elimina o mal de maneira inconteste. Esta literatura está dirigida principalmente para um povo subjugado por uma força do mal de poder imenso. Basta pensar no povo de Israel debaixo do jugo babilônico ou do jugo romano. Para manter a esperança viva em dias assim, era preciso uma literatura que garantisse a vitória de Deus sobre o mal e que fosse críptica, simbólica, de maneira que o inimigo não compreendesse seu conteúdo reacionário.
Penso que Bart pegou o pior da interpretação apocalíptica e acabou chegando à seguinte conclusão: "Outro problema é que 'saber' que todas as coisas no final serão consertadas por uma intervenção pode levar a uma espécie de complacência social, a um interesse em lidar com o mal quando dos deparamos com ele aqui e agora, já que isso será enfrentado posteriormente por Alguém muito mais capaz de lidar com ele do que nós somos. Mas a complacência face ao sofrimento real certamente não é a melhor forma de lidar com o mundo e seus imensos problemas. Tem que haver um caminho melhor" (p. 228). Descobri que há tal caminho naquilo que chamo de esperança escatológica.
A lógica é simples e poderosa: "já que vocês (os destinatários dos escritos apocalípticos) sabem que a vitória esmagadora de Deus (o Alguém de Bart) já está decretada, vivam hoje de maneira digna desta esperança, fazendo o bem e se desviando do mal". E é assim que, excetuando o livro do Apocalipse, o restante dos escritos apocalípticos do Novo Testamento está entremeado em outros tipos de textos (o capítulo 24 do evangelho de Mateus é um belo exemplo).
Vislumbrei pela primeira vez a ligação entre a esperança escatológica - a certeza de que Deus vencerá o mal de maneira definitiva - lendo o livro de Tito. O capítulo 2 desta carta de Paulo a Tito é emblemático. A primeira parte do capítulo sugere diversas maneiras de conduta para diferentes grupos de pessoas e, portanto, é muito prática, nada etérea. Há palavras para Tito, para os idosos, as idosas, as mulheres mais novas, homens mais novos, para escravos e donos de escravos. Mas em que está ancorada esta praticidade construtiva que Bart não consegue enxergar? Na esperança de que seremos libertados de toda maldade: "Essa graça [de Deus] nos ensina abandonarmos a descrença e as paixões humanas e a vivermos neste mundo uma vida prudente, correta e dedicada a Deus, enquanto ficamos esperando o dia feliz em que aparecerá a glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo. Foi ele quem se deu a si mesmo por nós, a fim de nos livrar de toda maldade e de nos purificar, fazendo de nós um povo que pertence somente a ele e que se dedica a fazer o bem" (Tito 2:12-14). Um povo que se dedica a fazer o bem é exatamente o que Bart procura e, por uma triste ironia, ele não encontrou esta solução nas páginas que eu e ele lemos.
A fórmula da esperança escatológica na Bíblica é simples e poderosa: se sabemos que um dia Deus nos libertará definitivamente de toda maldade, devemos viver hoje de maneira digna desta esperança. Não há sequer uma sugestão de que a esperança escatológica deva nos levar à "complacência face ao sofrimento real", independentemente de quem está sofrendo.
Com isso encerro minha resposta para meu amigo Bart, que trilhou muito dos caminhos e questionamentos sobre o sofrimento que eu trilhei. Andei pelos mesmos caminhos e fiz muitos dos questionamentos que ele fez, mas eu terminei do outro lado da margem porque, quando chegou a hora de tomar uma posição diante da vida, ele se desconverteu e eu fui afirmado em minha fé. Encontrei na esperança escatológica a garantia de que precisava para viver hoje sabendo que o mal será derrotado e que a morte será engolida pela vida. Onde Bart escorregou eu encontrei ânimo. Gosto mais da vista que tenho da minha margem do rio, e penso que saí ganhando. Não aceito viver sem esperança.