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Escrito por Marson Guedes às 00h58
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RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 6

 

Uma crítica a certa crítica textual

Zeitgeist é uma palavra bonita para dizer "espírito de época", ou as coisas típicas em que uma determinada geração acredita. Como costuma ser o caso com as palavras alemãs, tudo isso fica encapsulado em uma só palavra. Tal precisão é uma das serventias da língua alemã: Zeitgeist.

Tem uma coisa muito curiosa com nosso Zeitgeist e que tem relevância para minha conversa com Bart, que é a confiabilidade do texto bíblico. Em nossos dias, basta a igreja - normalmente a igreja católica - rejeitar algum escrito para ele se transformar em campeão de credibilidade. O Vaticano considerou que o texto não é confiável? Então o texto é confiável. A onda dos evangelhos apócrifos - Madalenas, Judas e companhia - é a manifestação mais evidente desse nosso Zeitgeist que se considera instruído, mas que deixa a desejar na qualidade da reflexão.

Quer um exemplo? São vários e variados os questionamentos sobre a fidelidade do texto bíblico. A Bíblia foi inadvertidamente corrompida por copistas desleixados; a Bíblia foi convenientemente mudada para servir de apoio para as malévolas maquinações dos clérigos, mais interessadas na glória terrena do que na glória celeste. E a discussão fica rasa assim, como se isso fosse a única coisa relevante a se dizer sobre a fidelidade textual da Bíblia.

Quer um exemplo diferente? Quando foi a última vez que você ouviu alguém questionar a fidelidade do texto de Platão ou de outro importante texto da antiguidade? Eu nunca ouvi ninguém mencionar a possibilidade de corrupção dos textos filosóficos que chegaram até nós, embora não haja nenhuma razão para imaginar que filósofos e acadêmicos sejam menos corruptíveis do que os clérigos. É um rigor seletivo e equivocado.

E você fica se perguntando o que isso tem a ver com Bart.


 

Minha bronca tem a ver com o livro de Jó, ou melhor, abordagem da crítica textual que o Bart adotou ao tratar de Jó. Abra o livro na página 146, e lá pode-se ler duas frases logo no primeiro parágrafo: "A maioria das pessoas que lê Jó não se dá conta de que na forma que chegou a nós o livro é obra de pelo menos dois autores diferentes, e que esses autores tinham compreensões diferentes, e contraditórias, de por que as pessoas sofrem... São duas visões diferentes do sofrimento, e para compreender o livro temos que compreender suas duas mensagens distintas".

Aceito que um especialista no hebraico diga tal coisa - afinal, ele sabe muito mais do que eu – mas, caso sua argumentação ofenda o que julgo ser de bom senso, já não me sinto obrigado a aceitar sua avaliação. Ser especialista em hebraico não é o mesmo que ser um bom intérprete, assim como decorar um livro não significa entender sua mensagem. E é isso que Bart faz com o livro de Jó. Leia o próprio Bart (página 147):

As duas fontes que foram aglutinadas para criar o produto final são escritas em diferentes gêneros: uma narrativa popular em prosa e em conjunto de diálogos poéticos. Os estilos de escrita são diferentes entre esses dois gêneros... Finalmente, e o mais importante: a visão de por que o inocente sofre difere nas duas partes do livro: na narrativa em em prosa, o sofrimento é um teste para a fé; na poesia, o sofrimento permanece um mistério que não pode se compreendido ou explicado.

Acho despropositado dizer que o livro de Jó foi escrito por duas pessoas, especialmente quando o julgamento se baseia em estilo e proposta. Em outras palavras, diz-se que que são dois autores porque o estilo da escrita é diferente - Jó é um extenso poema encapsulado em curtos trechos de prosa - e porque a proposta é diferente - a parte em prosa parece firme e propositiva, e a parte em poema para caótica e apresenta mais perguntas do que respostas. Não deixa de ser uma idéia interessante, mas deve ser considerada com cuidado porque é frágil. É como dizer que o autor de uma texto poético por princípio não tem capacidade de escrever prosa, e que por princípio um autor de alta qualificação não consegue fazer um contraste entre um texto propositivo e outro misterioso para atingir seus objetivos.

Essa argumentação não suporta sequer um sopro de questionamento. Fernando Pessoa foi capaz de criar heterônimos e ninguém fica dizendo que cada um deles foi escrito por pessoas diferentes. É um preconceito da crítica textual que eu não compreendo ou aceito, e junto escoa com ele toda a interpretação desesperançada que Bart oferece. Se a fragilidade da proposta de Bart para o sofrimento é o caso geral, a fragilidade desta abordagem textual é o caso específico. É fragilidade demais para mim, muito barulho por quase nada.

Penso que Bart desconfia do texto sem necessidade, de certa maneira cedendo a nosso Zeitgeist que combina bem com sua desconversão. Quando ele adota uma tese tão frágil quanto a da dupla autoria, sua argumentação também fica frágil porque divide artificialmente aquilo que vai muito bem quando está conectado. O livro de Jó pulsa quando está unido em um só feixe, combinando estilos e balanceando propostas.

Esta é uma das diferenças entre mim e Bart, uma das das que colocaram na margem oposta da questão do sofrimento. Acho que saí ganhando.



Categoria: Cristianismo - Religião
Escrito por Marson Guedes às 20h01
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