Banco de dois pés não pára em pé
Depois de uma certa idade, a gente começa a se irritar com as coisas que antes considerava desafiadoras ou temíveis. Foi o que aconteceu comigo com o tal do dilema entre Deus e o mal. É a velha formulação: "Considerando a existência do sofrimento, ou Deus é bom mas não é poderoso – ele quer acabar com o sofrimento mas não consegue –, ou Deus é poderoso mas não é bom – ele pode acabar com o sofrimento mas não o faz". Colocado desta maneira, o dilema continuará dilemático. É como um banco de dois pés que não pára em pé. Um pé é a bondade de Deus, o outro pé é seu poder. Optei por colocar mais um pé neste banco. Estava cansado da discussão estéril do banco de dois pés. O terceiro pé é a maldade humana, justamente o pé que Bart se recusa a colocar no banco. O banco caiu, e ele também.
Esta formulação do dilema me irrita porque coloca Deus em uma posição absoluta, e nos coloca em uma posição de vítimas arrematadas. Se Deus é bom e não é poderoso, a culpa do sofrimento é de Deus; a gente não sai na fotografia. Se Deus é poderoso e não é bom, a culpa do sofrimento é de Deus; a gente não sai na fotografia. Então, o que somos? Vítimas robotizadas nas mãos de um Deus manco. Que tal esta descrição? Você consegue se encaixar nela? Eu não, e fico irritado.
É por isso que não consigo imaginar a discussão sobre o sofrimento sem incluir na análise a responsabilidade do ser humano em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo (responsabilidade ecológica, se preferir outro termo). O ser humano é responsável pelo que faz, não apenas fruto deformado de um Deus manco e que quer o palco apenas para si. O dilema com dois pés apenas banaliza Deus e despreza nossas ações.
Por incrível que pareça, é a formulação de dois pés que o Bart adotou como bússola para seu trabalho. Abraçando esta formulação, a conclusão lógica é inevitável: este Deus manco não é digno de adoração, e a gente aqui embaixo vai fazendo que pode com tanta malignidade correndo solta, tal como o diabo gosta.
Algumas frases de Bart sobre este tema deixam entrever um certo desprezo por isso que se convencionou chamar de livre arbítrio. Ele tem duas saídas quando confrontado por esta possibilidade. Na primeira, ele pergunta como o livre arbítrio pode explicar catástrofes naturais – enchentes, tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas – que matam tanta gente e trazem sofrimento a outras tantas. Como o livre arbítrio não tem nada a dizer sobre este assunto, ele se dá por satisfeito e muda o rumo da conversa. Na segunda, ele simplesmente diz que o livre arbítrio não era nem de longe tão importante para os homens da Bíblia como é para nós, humanos pósmodernos. Admito que ele tem sua parcela de razão. O mundo dos homens da Bíblia é um mundo dominado por Deus, embebido nele, um mundo em que Deus não é visto mas é respirado. Mas...
...Bart não colocou na equação uma expressão que se repete ao longo da mesma Bíblia: Deus retribuirá aos homens segundo suas obras (veja Salmos 62:12, e a releitura desta passagem em Romanos 2:6). Homens da Bíblia, do Antigo e do Novo Testamentos, adotaram a visão de que Deus nos trata segundo o que fazemos. Pode ser que as categorias orientais de pensamento da Bíblia não usem a idéia de livre arbítrio tal como a usamos hoje, mas é certo que Deus leva a sério o que fazemos aqui.
A proposta de Bart para resolver o problema do sofrimento é manca porque não leva em consideração a maldade humana, o tal do terceiro pé do banco. Isso deixa de fora uma possibilidade maravilhosa, que é a redenção deste ser humano. Se é o humano que mata, trucida e tortura, só a transformação deste humano vai resolver o problema do sofrimento. E não é exatamente isto que a Bíblia propõe tantas vezes? Basta-me Jeremias, o profeta da minha predileção: "[Eu, Deus] Porei a minha lei no íntimo deles, e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao Senhor’, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior", diz o Senhor (Jeremias 31:33-34).
Se a lei de um Deus bondoso estiver escrita no íntimo do ser humano, e todos os humanos conhecerem à perfeição o mesmo Deus bondoso, não mais haverá malignidade na terra. O homem terá sido redimido, e junto com ele a terra. É por isso que eu me recuso a sentar no banco de dois pés que o Bart armou para mim: ele não fica em pé.