Fui direto para a conclusão, coisa que não é do meu feitio. Em vez de paciente e atentamente ler para captar o argumento do autor, eu quis logo saber qual era a solução que ele dava. Já li bastante coisa, pouco me impressionam as repetitivas discussões, fui saber a conclusão. Minha conclusão é que o problema do Bart é sua solução.
Sabe o que encontrei na conclusão? Que certo mesmo estava Salomão ao escrever o livro de Eclesiastes. O que especialmente? Que o sofrimento é aleatório, e que o certo é aproveitar o lado bom da vida (com certa tendência ao efêmero): assistir a uma bela partida de algum esporte que você gosta, aquela cerveja bem gelada que você adora, o chocolate divino que derrete em segundos na boca, a comida saborosa que enche a boca de água e de sabores. Vocâ sabe como a lista continua.
Tem outra solução que encontrei na conclusão, que é a disposição de consertar o que há de errado no mundo. Se juntos conseguíssemos arrumar uma maneira de erradicar a malária, providenciar saneamento básico e água potável para todos, muito sofrimento neste mundo teria fim quase imediatamente.
Curta o lado bom da vida, e lute para consertar o que há de errado no mundo: esta é a solucionática do Bart. Muito pouco, na minha opinião.
Entenda meu desconforto com esta proposta. Bart se desconverteu, deixou de ser pastor de jovens em uma igreja protestante para ser agnóstico, e hoje até aceita admitir a existência de Deus, embora lhe negue a devoção. Afinal, um Deus que deixa acontecer no mundo o que aqui acontece não é um Deus merecedor de louvor nem adoração, mesmo que exista. Ele matou dentro de si o mesmo Deus que continuou vivo dentro de mim.
O que ele pede de mim, então? Que eu me desconverta também? Sim. Basta eu acolher sua argumentação. Mas eu fiquei me perguntando se a proposta de Bart é forte o suficiente para me balançar. Não. Olhei com honestidade intelectual e sequer fiquei abalado.
Veja, para viver o lado bom da vida, e também lutar para consertar as coisas erradas que existem no mundo, não é preciso matar Deus dentro de si e optar pelo agosticismo. É perfeitamente possível – e lógico – seguir suas recomendações e permanecer cristão, daqueles que acreditam na Bíblia e, por causa disso, continuar acreditando que Deus é bom e todopoderoso.
Fiquei um tanto ultrajado com esta solucionática diante de uma problemática tão complexa e densa. Implícito no convite para adotarmos sua posição se encontra uma sugestão que me é de todo intolerável, a saber, de que devo abandonar um Deus amoroso e todopoderoso para abraçar o bom senso que Bart está me oferecendo. Ele rejeitou um Deus que controla a história e me ofereceu uma boa ideia. Inclusive, uma boa ideia que funciona muito bem obrigado mesmo acreditando em um Deus amoroso e todopoderoso.
Quem em sã consciência trocaria um Deus bom e todopoderoso por um par de boas idéias? Em última análise, seria deixar Deus de lado e optar pelo bom senso de Bart. Não dá. Seja qual for a solução para o problema do sofrimento abundante que existe neste mundo (mundo que parece ter sido esquecido por Deus), certamente não a encontraremos largando tudo para abraçar a mera opinião de um americano, por mais inteligente, questionador, sensível, sensato e boa gente que possa ser. Como estudioso ele se sai bem, tem boas contribuições para apresentar. Como fundamento último para que o bem vença o mal, ele sequer tem o direito de abrir a boca.
Assim, Bart matou Deus dentro de si, mas, se depender da qualidade de sua solução para o problema do mal, o mesmo Deus continuará vivinho da silva dentro de mim.