RESPOSTA A BART EHRMAN - PARTE 1
As bruxas de Bartsville Eu sei qual é o problema da discussão sobre o problema do sofrimento: este problema é habitado por duas bruxas, que se movimentam cada qual em sua dimensão. Às vezes elas aterrorizam cada uma para seu lado, mostrando suas caras deformadas; às vezes elas se juntam e parecem imbatíveis. As bruxas, por assim dizer, são bruxas metodológicas, cada qual habitando sua própria dimensão.
A primeira bruxa é a bruxa da abordagem intelectual para o problema do sofrimento. É uma bruxa feroz, já que resolver os paradoxos e inconsistências que povoam o problema do sofrimento é uma tarefa mais do que difícil. É tanto enrosco intelectual para todo lado que a discussão às vezes mais parece um terreno pantanoso do que uma discussão firmemente ancorada na lógica, nas regras do bom pensar. Mas acontece também uma coisa curiosa, quando a discussão se desliga da realidade da dor e passa a ser apenas uma discussão intelectual asséptica, como se a dor e o sofrimento fossem apenas categorias da lógica e guardassem apenas uma leve correspondência com a realidade do sofrimento sentido na carne. Tenho muito medo desta bruxa. Posso me deixar atingir pelo feitiço do raciocínio convoluto, frenético mas sem direção. Ou posso me deixar atingir pelo feitiço do pensamento asséptico, que trata o estupro, o assassinato e a tortura como categorias lógicas protegidas da sujeira das ruas.
Julgo a outra bruxa mais perigosa, a bruxa da abordagem existencial para o problema do sofrimento. É quando o sofrimento, mais do que discutido, é também sentido. Vive esta dimensão existencial aquele que fica sob o feitiço maligno de imaginar o que é ser estuprado, surrado ou torturado. O mesmo feitiço assume uma ordem de grandeza superior quando não é preciso imaginar, ou seja, quando o feitiço maligno gruda em quem foi estuprado, surrado ou torturado, ou qualquer outra das variações malignas da maldade.
Quando nos atinge, este tipo de malignidade paralisa, rasga a alma. Para qualquer pessoa de bem, a existência de sofrimento nesta medida é inconcebível. Tal dor faz a alma ensimesmar, tudo o que existe é a própria dor, a própria desventura. Se deixada sem rédeas, a bruxa da dimensão existencial do problema do sofrimento mata por paralisia respiratória. Conselhos soam mais como agressões do que conforto, a vida se torna um campo minado intransponível e a vontade fica refém dos gritos, dores e rasgos.
Quando as bruxas atacam, seja em que dimensão for, uma personagem é sempre invocada: Deus. Ou, para ser mais preciso, o Deus cristão, insistentemente tratado nas Escrituras como um Deus bom e todo-poderoso. Sempre que as bruxas atacam, é ele quem precisa dar explicações.
Bart Ehrman escreveu um livro intitulado O problema com Deus: as respostas que a Bíblia não dá ao sofrimento, publicado pela editora Agir. Li o livro já um tanto enfastiado do tema. Boa parte dos livros acaba se repetindo ou dando soluções que considero insatisfatórias. Mas desta vez senti-me desafiado. Descobri que o Bart foi vítima da segunda bruxa metodológica, a da dimensão espiritual do problema do sofrimento. Diante do sofrimento sentido na carne, ele fez do Deus cristão um réu, julgou-o, achou-o em falta e o abandonou. E é notável que nem mesmo foi o sofrimento dele que causou tudo isso. De cristão confesso, Bart virou um agnóstico, desconverteu. Para ele, pode ser que Deus exista, mas não há como provar a tese nem a antítese. Pode ser que Deus exista e deva ser temido, mas Bart já não o considera objeto de sua devoção. Um Deus que permite o sofrimento no mundo não pode ser bom.
Achei que precisava responder às angústias de Bart. Veja que disse "angústia", e não "argumentos". O livro é uma saga pessoal em busca de compreensão, em busca de uma redenção que ele não encontrou. Os argumentos são a parte mais evidente do livro, mas respondo a Bart expondo minhas angústias, questionamentos e raciocínios. Respondo a Bart porque trilhei muitos de seus passos e cheguei ao outro lado da margem. Depois de muitos desequilíbrios e sacolejares, continuei fazendo do Deus cristão meu objeto de devoção. Depois de tudo contado e apurado, para mim Deus continua sendo bom e todo-poderoso, assim como as Escrituras insistem em afirmar.
Chamo Bart D. Ehrman apenas de Bart porque vou escrever como se escrevesse sobre ele para ele. Trilhamos o mesmo caminho, só nos separamos no fim da jornada. Chamarei Bart D. Ehrman de Bart porque tive poucos companheiros de lida na luta contra as bruxas que fossem tão sérios e estudados como ele. Nós lemos os mesmos textos, paramos nos mesmos pontos, examinamos as mesmas evidências com o mesmo rigor. À distância, sem ele saber que eu existo, vou tratá-lo como um amigo e lamentar por hoje me encontrar do outro lado da margem. É que uma das bruxas o feriu com ferida de morte.
(continua)
Escrito por Marson Guedes às 02h39

















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