AIRWOLF
Sou mesmo obstinado com algumas coisas. Um amigo arrumou diversos emepetrês de séries antigas de televisão, e coloquei a trilha de Airwolf como toque de celular. É um seriado que não assisti, mas girava em torno de um helicóptero. Tinha o Ernest Bornigne no elenco.
No fim de semana decidi aumentar o volume do arquivo, pois nem sempre ouvia o toque. Fui na sexta para casa sem meu notebook, e no da minha esposa não tinham os programas adequados. O mais sensato era esperar até segunda e fazer tudo com facilidade. Nada disso. Fui para a internet no notebook da minha esposa, e não saí de lá enquanto não consegui o que queria.
Foi mais ou menos assim minha saga. Primeiro baixei um programa de edição de áudio. Fiquei feliz de editar o arquivo, mas logo percebi que o programa só salvava em formato uâivi, que não resolvia meu problema. Então encontrei um convertedor de formatos e - tadá - lá estava eu com um emepetrês de volume aumentado para +6dB.
Restava ainda outra dificuldade técnica: passar o arquivo certo para o celular certo. O notebook da minha esposa não tem blutúf, e o celular em questão não aceita uéssibê. Foi quando tive a idéia de transmitir o arquivo via uéssibê para outro celular e depois transmiti-lo para o celular certo. Duas horas depois, e um pouco de tutano, eu tinha o arquivo com mais volume no meu celular certo. Não seria a falta de programas, ou de protocolos de comunicação, que me faria parar. Nada disso. Que segunda o quê!
Você não notou a semelhança disso com o problema do sofrimento? Eu também notei.
Em setembro vou comemorar dez anos de lida apologética. Tento com a mesma tenacidade entender como o mundo funciona através da ótica bíblica. Durante todo este tempo tive a mesma tenacidade que usei para resolver o problema Airwolf. Cheio de sinceridade, dei a cara a tapa nos mais diversos aspectos, balancei muitas vezes, mas continuo cristão, talvez mais do que nunca. Nem mesmo o problema do sofrimento - se Deus é bom e poderoso, por que existe sofrimento? - me tirou de meu eixo cristão.
De longe o problema do sofrimento injusto é o maior problema apologético para o cristão. Já li muita coisa escrita por cristãos, por ateus e agnósticos, mas algo parecia faltar. Escarafunchando camadas e mais camadas de material escancaradamente cartesiano, fui me dando conta que o problema do não cristão revoltado contra o Deus cristão é menos um problema inteletual cartesiano e mais da afeição. Estranho, não? E também contraintuitivo, certo?
Perde a fé aquele que se sente traído quando vê o sofrimento, quando se depara com a face da fome, da matança, da vida por um vintém, das crianças abusadas sexualmente por pais ou tios ou outras das inúmeras variações malignas do mal. É como o rapaz de fé bambeante pedindo aos berros a Deus "Se você existe, cure meu pai agora!". O pai morre e, portanto, Deus não existe. Este é um salto lógico injustificável por qualquer regra do bom pensar. A conclusão afetiva, da alma ferida pela traição de Deus, deveria ser "Hoje Deus morreu para mim". Tudo o que vier de justificativa posterior é uma mera justificação ad hoc de um coração espezinhado, estranhado de Deus por aquilo que julga ser uma traição divina.
Quisera eu saber defender Deus para gente assim, livrá-las deste veneno e reconduzi-los à cura dos afetos. Quisera eu ter a mesma tenacidade e sucesso com estas pessoas que obtive com o toque do Airwolf. É razoável dizer que consigo debater bem no nível acadêmico o problema do sofrimento e de uns e outros problemas apologéticos, mas quem se sente traído dificilmente se deixa amolecer para um Deus de amor que cura. Não há tenacidade que cure a afeição envenenada de um coração espezinhado. E, infelizmente, não há nenhum programa disponível da internet para me ajudar.
Nesse terreno, ao mesmo tempo sagrado e amaldiçoado, só Deus consegue pisar. Que ele me conceda a graça de ver o milagre de um coração espezinhado ser transformado em um coração curado, sem venenos nem traições, sejam reais ou imaginadas. Só então poderei me alegrar com o sucesso do emepetrês do Airwolf sem sentir também uma agulhada no coração por aqueles que mataram Deus dentro de si.