COSMOVISÃO: SECULAR E MONOCULAR
Parte 1
É como se eu estivesse em um imenso pavilhão, um misto de estacionamento de subsolo com teto de escritório. As vigas são quadradas, muito largas, feitas daquele concreto claro que parece estar polido, nas quais se divisam reflexos das luzes vindas de luminária compridas e amaciadas por um plástico leitoso. Tudo é muito limpo, quadrado, organizado, asséptico. Se fosse um estacionamento, caberia bem uns trezentos carros sem aperto; se fosse um escritório, abrigaria bem umas quinhentas pessoas trabalhando sem se acotovelarem.
Toda a iluminação é artificial, não há janelas nem frestas por onde a luz do dia consiga se imiscuir. Não imagino lá marqueteiros tentando bolar o próximo comercial sobre o qual todo mundo fala. Não. Entretanto, é possível imaginar uma equipe de engenharia dos velhos tempos, daquelas que usava prancheta, régua paralela, lapiseira 0,5 mm, canetas nanquim, calculadoras científicas, compasso e transferidor. O lugar não é antiquado, apenas combina com esta imagem de rigor manual, exatidão e minúcias de cálculo.
Não é um lugar intimidador, mas dá a impressão que falta algo. Quem solta um grito no meio deste pavilhão de subsolo não ouve o eco típico dos lugares abertos. Não. Junto com o eco vem muita reverberação que confunde o ouvido com o richocheteio das ondas sonoras que batem e voltam no piso liso e nas vigas nuas. A voz em seu tom normal fica amplificada, com som alargado, mas qualquer coisa mais alta ou estridente recebe de volta mais confusão do que amplificação. O ganho de volume se perde no esforço maior que é necessário para compreender o conteúdo no meio de um amontoado de ondas sonoras que se cruzam, se anulam e se contaminam com a poluição acumulada na reverberação. Ali é lugar de se falar baixo, comedidamente e com boa dicção. Qualquer barulho divertido dói o ouvido. Não serve, por exemplo, como playground nem campinho de futebol. Essas coisas são divertidas demais para este pavilhão. É lugar muito bom para deixar o carro, mas não serve como moradia, lugar de lazer nem ambiente de trabalho.
O lugar é limpo, quadrado, eficiente, asséptico. Mas não é bem um lugar, é uma cosmovisão.
Recentemente li o editorial de um jornal que criticava o ensino do criacionismo nas escolas. Referia-se a algum estado ou município que aprovara uma lei que permitia o ensino do evolucionismo e do criacionismo. Nem me dei ao trabalho de descobrir onde tal fato se dera. Eu acho esse assunto muito chato, mantenho-me a léguas de distância dele. O tema me lembra do ranço religioso herdado dos batistas americanos, que se apegou a mim tal coisa grudenta e asquerosa, coisa da qual me afasto bruscamente sempre que a identifico.
Li o texto e minha primeira impressão foi muito boa, pois estava bem escrito, bem estruturado e sucinto apesar de dizer tudo o que precisava dizer. Fiquei sem ação. Se estivesse em um debate, eu teria ficado sem fala, sem palavras decentes que compusessem uma resposta respeitável. Certo é que as respostas vieram, e elas evocaram em mim a imagem de um pavilhão com teto de escritório e piso de estacionamento, lugar que não comporta barulho nem serve de ambiente para a criatividade.
Cosmovisões são coisas elusivas, são como o ar que não se pode enxergar, mas que podem matar se faltarem. São coisas invisíveis, mas que definem quase tudo (ou tudo - é que fiquei temeroso na hora de dizer "tudo") em uma sociedade e, por extensão, para cada indivíduo.
É por isso que uma observação feita dentro de uma cosmovisão tem mais peso que a observação em si. O que vale mais? A ameaça que você faz para os meninos folgados da sua rua, ou seu irmão mais velho que lança olhares raivosos aos moleques folgados? O que vale mais? Dizer que o evolucionismo tem inúmeras evidências científicas, como fez aquele editorial, ou dizer isso dentro do arcabouço secular que o aceita com a maior naturalidade? A cosmovisão é o irmão mais velho que põe para correr as críticas feitas por moleques atrevidos. A menos, é claro, que você queira enfrentar o irmão mais velho.
(continua)