NOVE
A coisa mais nojenta que já lhe acontecera não era uma, mas várias coisas, um conjunto diabolicamente entremeado de mentiras com umas poucas verdades que dessem credibilidade à mentira. A coisa mais nojenta que já lhe acontecera não era bem uma coisa, mas uma pessoa mancomunada com outras pessoas, e todas mancomunadas com o mal.
Cansado de assumir cargos de liderança, agarrou a oportunidade de ajudar na tesouraria da igreja. Seria uma trégua do burburinho cansativo de gente precisando a toda hora de atenção, demandando soluções imediatas para problemas de décadas, gente que tem certeza de que o líder só serve para ser sugado até ficar alma ressequida e o espírito virar um terreno árido e escorchado. A salinha relativamente pequena, quase mal iluminada e um tanto afastada da tesouraria lhe pareceu um ambiente apetitoso naquela altura dos acontecimentos. Assim, ele poderia fazer algo de útil enquanto se recuperava emocionalmente da azáfama que são as atividades de um líder eclesiástico. Ele usaria sua intimidade com os números para se ver apenas com planilhas e cédulas, entrando em trégua com as ambições e esperanças de pessoas incomumente comuns. O geladinho da diminuta sala mais lhe pareceu um ar condicionado no calor do que o vento gelado que castiga o corpo e queima o rosto. Não demoraria para ver mais uma de suas esperanças de sossego sucumbir debaixo da cobiça e da hipocrisia.
"Esses recursos são para um fundo especial", disse o tesoureiro chefe, um senhor de meia-idade que já cheirava um pouco de mofo. Ele perguntara sobre uns valores estranhos na planilha financeira, valores que não batiam e contas não fechavam. Quando perguntou sobre esse tal fundo especial, ouviu que o fundo era para um grande projeto que a diretoria da igreja abraçara uns tempos atrás. Já ouvira algum zunzunzum sobre o assunto e sossegou-se temporariamente com essa explicação. No entanto, isso não fora suficiente para explicar a ausência desses valores no relatório financeiro mensal apresentado à assembléia solene da igreja para aprovação.
A salinha tinha dimensões diminutas, mas cabia um telefone. Sempre que tocava, o senhor tesoureiro chefe o atendia com presteza. No início lhe pareceu disposição, mas depois soou mais com defesa de território do que qualquer outra coisa. Essa impressão foi acentuada com alguns telefonemas cifrados, cheios de sins e nãos secos, de "esse assunto" e de "o outro assunto" que servem de código mal ensaiado entre partes mancomunadas. Só o tesoureiro chefe tinha a chave do lugar, coisa vedada até ao zelador. Se algo tivesse que acontecer naquela sala, seria na presença do tesoureiro chefe. Isso começou a incomodar, mas ele repetia para si mesmo que sua função era a de fazer contas, preencher planilhas e descansar das pessoas carentes que sugavam sua vitalidade e energias. Que ele ficasse, então, de boca calada e evitasse as perguntas.
Por mais que tentasse reprimir seu instinto de questionamento, as perguntas na sua mente recusavam-se a ir embora, e isso dificultava em muito sua intenção de manter a boca calada. Foi se agüentando porque estava de fato apreciando o silêncio e a virtual inexistência de sanguessugas a drenar sua energia. Quando suas energias foram se recompondo e o sossego já não era mais tão importante, ele passou a ter muita dificuldade para tolerar tudo isso. Ficava se perguntando se não estava entrando desnecessariamente em mais uma briga, mais um enfrentamento, mais uma dissidência. Ficava se perguntando se o problema não era ele mesmo, já que arrumava sarna para se coçar onde quer que se encontrasse. Vai saber.
Parecia haver uma ligação entre a insistência feita de púlpito para a contribuição financeira e o tamanho da disparidade encontrada nas planilhas. Quanto maior o apelo, maior a discrepância. Foi mais ou menos na época em que notou essa correlação que foi xucramente afastado da contagem do dinheiro em si e, principalmente, dos cheques. Foi mais ou menos nessa época que notou certa diferença no tom de voz do sisudo em certos telefonemas que atendia. A voz costumeiramente ríspida, arenosamente ressequida, assumia tons afáveis e indisfarçadamente satisfeitos. Era voz de mulher tinha certeza. Mais um pouco de tempo e passou também a ter a certeza de que não era a voz da senhora tesoureiro chefe. O cheiro de podre logo contaminou o ar, mistura de sexo proibido com dinheiro desviado. Ele quis que sua ingenuidade fosse corroborada por enganos inocentes, pensamentos de faz-de-conta e pura preguiça de se meter em outra encrenca, de ter outro rosto diante do qual estender o dedo acusador. Ele quis, mas de nada isso adiantou. Sem querer, sem pedir, saiu de uma roubada e entrou em outra sem precedentes, esta com implicações que ele não sabia mensurar.
Aquela voz de uma mulher que não era a senhora tesoureiro chefe amaciava de tal maneira o tesoureiro chefe que ele mal conseguia disfarçar, mesmo sendo homem severo e de fala raspada e arenosa. O homem era um predador com o dinheiro da igreja, mas era presa dócil e afável de uma mulher que não era a senhora tesoureiro chefe.
O que aconteceria quando a senhora tesoureiro chefe e a liderança da igreja ficassem sabendo de tudo, quando tudo ficasse às claras? Ele não tinha provas, mas as coletaria. Assim, estaria pronto para mais uma cruzada contra a corrupção eclesiástica.
Ele era bom, e sabia disso. Mas nada o tinha preparado para o que se seguiria.
(continua)