ESPECULAÇÕES ESPECULATIVAS
Parece ser contraditório afirmar que boa parte da ciência evolutiva é especulativa por natureza. Estamos acostumados com a noção de que a ciência é exata e suas afirmações categóricas. Já mencionei em um post anterior que o evolucionismo é uma ciência observacional, o que, em parte, explica minha afirmação.
É possível argumentar que a ciência evolucionista é exata, mas não é exata nas coisas que considero mais importantes. A datação de crânios e artefatos pode ser exata, mas interpretar o registro fóssil não é. Há lacunas demais para que as teorias sejam realmente explicativas. É aí o ponto fraco da teoria evolucionista, é aí o ponto de vital importância. É como um jogador de futebol que dribla todo mundo, mas que não consegue fazer o gol.
A primeira vez que notei isso foi na matéria Comportamento humano: origens evolutivas. Em matérias desse tipo a evolução nunca é discutida, apenas pressuposta. Nessa matéria foi mencionado um autor que defendia a seguinte idéia: as chimpanzés fêmeas ficam com o traseiro bem vermelho quando estão no cio, e nenhum macho fica em dúvida sobre seu estado. Isso não acontece com as fêmeas humanas. A ovulação delas é interna. Então, para evidenciar de alguma forma seu estado de prontidão sexual, o decote que revela a união dos dois seios indica as nádegas da mulher em um local onde os machos humanos conseguem enxergar. Tem mais: os lábios da fêmea humana são uma espécie de representação da vagina, motivo pelo qual elas costumam realçá-los com cosméticos. Seria um jeito de a fêmea humana indicar sua prontidão sexual, um jeito favorecido pelas pressões evolutivas. É preciso reconhecer que, mesmo dentro da comunidade evolutiva, essa é uma idéia controversa, mas é um bom exemplo de até onde podem chegar as especulações evolutivas.
Infelizmente não tenho a referência desse texto – não lembro do título, também não lembro de quem escreveu. Mas tenho ao meu lado quilos de textos dessa matéria. Para ilustrar meu argumento, vou citar alguns trechos. Tenha em mente que esses textos são usados em matérias sérias, oferecidas para alunos de mestrado e doutorado na USP. Portanto, não são uma caricatura.
Os pênis humanos são relativamente grossos, e isso deve ter aparecido na evolução humana simplesmente porque Lucy [fóssil bem preservado de uma fêmea humana] e suas amigas os preferiam assim. (...) Se as fêmeas primitivas escolhiam machos com falos mais grossos – como deve ter acontecido – os machos com essa característica tinham mais amigas especiais e também mais amantes ao longo de suas vidas. Portanto, tinham mais filhos; e os pênis grossos evoluíram.
Fisher, H. (1992). Anatomia do amor. Rio de Janeiro: Record (Cap. 9 – A rede da sereia, p. 207).
Por exemplo, não é óbvio por que a nossa perda de pêlos deveria ter tornado o sexo recreativo mais atraente, nem por que nosso controle do fogo possa ter favorecido a menopausa. Eu diria o contrário: o sexo recreativo e a menopausa foram importantes para nosso desenvolvimento do controle do fogo, da linguagem, das artes e da escrita, assim como o foram nossa postura ereta e nossos cérebros grandes.
Diamond, J. (1997). Por que o sexo é divertido? A evolução da sexualidade humana. Rio de Janeiro: Rocco. (Cap. 1 – O animal com uma vida sexual muito esquisita, p. 19).
Mais recentemente, Robin Dunbar sugeriu que a fala poderia ter evoluído de modo a facilitar a interação social nos grupos de hominídeos, o equivalente ao "grooming" [catação] nos primatas não-humanos. Acima de um certo tamanho de grupo, argumenta, o grooming torna-se ineficiente para manter os laços sociais. A fala é poderosa porque pode incluir indivíduos que não estão presentes. Estas linhas de investigação – o mundo mental interno e o mundo social – sustentam uma dinâmica de evolução gradual da fala e que tem início em uma época mais remota.
Lewin, R. (1998). Evolução humana. São Paulo: Atheneu Editora. (Cap. 32 – A evolução da fala, p. 465).
Citações semelhantes podem ser multiplicadas sem grande esforço. Mas esses são exemplos de idéia especulativas que me fizeram gradualmente perder a fé na evolução darwinista. Não que realmente a tenha aceitado, mas eu fui com honestidade intelectual procurar respostas. Li os textos, fiz perguntas a autoridades no campo, pensei, li mais. No entanto, essas especulações exageradas me fizeram desencantar da explicação evolucionista. O que o controle do fogo tem a ver com a menopausa? Talvez tudo, mas é impossível saber porque não há dados concretos. A solução? Especular com o pouco que existe de dados. Como concordar com o raciocínio sobre pênis grossos, e imaginar que eles foram selecionados evolutivamente porque a Lucy – de quem só conhecemos os ossos – gostava que fosse assim? Pode até ser verdade, mas há um exagero de suposições nesse raciocínio. Fico me perguntando: de onde vem tanta confiança para o autor observar que "deve ter acontecido"? É uma coragem especulativa que não consigo acompanhar nem aceitar. Por fim, a última citação tenta lidar de maneira desajeitada sobre a origem evolutiva da fala, da linguagem. Tenta-se partir da catação que os primatas não-humanos fazem e chegar nos vínculos sociais dos hominídeos e então – mágica! – concluir que esses aspectos sociais foram as pressões evolutivas que nos deram um cérebro grande e nos fizeram falar. E não se esqueça da importância do sexo recreativo.
Que você pense e tome uma posição. De minha parte, essas especulações são especulativas demais. Foi aí que a teoria da evolução morreu para mim.