A seleção natural proposta por Darwin pode ser resumida pela expressão "a sobrevivência do mais adaptado". A idéia pode ser estendida para "a sobrevivência do mais adaptado às mudanças do ambiente", e ainda mais esticada para "a sobrevivência do mais adaptado às mudanças do ambiente e que deixa mais descendentes".
Exemplos podem ajudar. Imagine que um grupo de cachorros-do-mato que habita uma região de savana na África. Cada família gera um número de filhotes, e esses filhotes apresentam algumas características: um é mais gordinho, outro um pouco mais peludo, um mais ativo e outro mais molenga, e assim por diante. Essas variações não são comprometedoras no ambiente atual em que vivem. Mas imagine o seguinte cenário: uma tremenda mudança climática transforma a savana em um lugar gelado, e isso ao longo de milhares de anos. A mudança climática é lenta, gradual, e dentro desse período de queda de temperatura os cachorros-do-mato se reproduzem muitas vezes. A tendência é que os filhotes que nasceram com pelagem mais abundante e espessa tenham mais chance de sucesso do que outros filhotes. Depois de várias gerações, haverá um número maior de animais com pelagem mais espessa, e isso fará que esses animais sejam a maioria no grupo. Uma característica que era uma variação aleatória nos filhotes tornou-se um fator decisivo de sobrevivência.
É a sobrevivência do mais adaptado: a pelagem mais espessa provou ser um fator decisivo na sobrevivência. É a sobrevivência do mais adaptado às mudanças do ambiente: o ambiente mudou, e um tipo de característica prevaleceu, nesse caso a pelagem mais espessa. É a sobrevivência do mais adaptado às mudanças do ambiente e que deixa mais descendentes: os animais que sobreviveram geraram mais descendentes e fizeram da pelagem espessa a característica predominante no grupo.
Um exemplo clássico é o dos tentilhões. Darwin fez uma longa viagem a bordo do navio Beagle, cumprindo a função de naturalista. Os espécimes das mais variadas regiões do mundo deram a ele muito o que pensar. Um dos espécimes que ele coletou foi o de tentilhões, mais tarde batizados de os tentilhões de Darwin. Os tentilhões eram habitavam as ilhas Galápagos. O mais notável nesses tentilhões era a diferença dos bicos. Observou-se que os diferentes bicos eram adaptados ao tipo de alimento disponível na região da ilha em que foram encontrados. Alimentos mais duros favoreciam a presença de tentilhões com bicos maiores e mais fortes, e assim por diante. Como se pode interpretar esse dado de acordo com a seleção natural?
Um grupo de tentilhões conseguiu migrar do continentes para a ilha. Esse grupo era bastante uniforme em suas característica físicas. Com o tempo foram ocupando partes diferentes da ilha, que ofereciam alimentos diferentes. Ao longo de muitas gerações, foram favorecidos os tentilhões com o bico mais adaptado ao alimento disponível. Os que não tinham bicos adequados tinham menor chance de sobrevivência. Os que tinham bicos adaptados sobreviviam e geravam mais descendência, fazendo prevalecer essa característica física. Havendo diferentes tipos de alimentos, o bico dos tentilhões foram se especializando até se tornarem bem diferentes.
É por isso que considero a seleção natural uma teoria com alto poder explicativo.

Tentilhão Tentilhões de Darwin, das Ilhas Galápagos
Deve-se observar duas coisas importantes. Em primeiro lugar, a variação dentro da espécie tentilhão é aleatória, ou seja, nenhuma espécie "decide" se especializar em algo que vai aumentar suas chances de sobrevivência. Em segundo lugar, não há mudanças de espécie, apenas uma variação dentro da mesma espécie. Isso será importante quando tratarmos da especiação.
Sendo cristão e criacionista, não vejo nenhum problema em aceitar a seleção natural como mecanismo de diferenciação dentro da mesma espécie. Um Poodle pertence à mesma espécie do Rotweiller, que pertence à mesma espécie do Fila, que pertence à mesma espécie do Chiuaua: apesar disso, as diferenças não poderiam ser mais evidentes. Lembre-se: características diferentes, mesma espécie.
Assim, a seleção natural não coloca nenhum obstáculo para o criacionista. Para mim é uma excelente explicação, desde que não se fale em especiação, ou seja, de uma espécie transformando-se em outra. É aí que "o bicho pega". Mas isso é assunto para o próximo texto.
Ah sim: a seleção natural também é chamada de microevolução.