Por Alexandre Robles (link).
Pois bem, se eu sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés,
vocês também devem lavar os pés uns dos outros.
João 13.14
Jesus afirma que é Mestre e Senhor de seus discípulos e sob essa afirmação determina que sigam seu exemplo. E porque é Senhor é que Ele também é Mestre. Em outra ocasião, falando a respeito dos fariseus de sua época, Jesus disse que há apenas um que deve ser chamado Mestre por causa de sua proeminência divina, nivelando todos os homens como irmãos uns dos outros [Mateus 23.8]. Cristo declara que apenas o Senhor é que tem ascendência e autoridade sobre os homens e que todos os homens, independente da autoridade funcional, estão na mesma posição hierárquica de servos de Deus, por isso que nenhum homem seja servo de outro homem [Atos 4.19].
Também ensina que o Mestre deve ser seguido pelo que faz e não pelo que diz. Diferentemente, os fariseus eram aqueles que diziam muito e nada faziam, eles pretendiam se sentar na "cadeira de Moisés" e Jesus denuncia sua atitude advertindo seus ouvintes de que façam o que deles ouvem, mas não imitem o que eles fazem [Mateus 23.1-3]. O discípulo de Cristo deve seguir o que Ele fez e não somente o que falou.
Isso torna o Evangelho uma mensagem única na humanidade. E o contexto judaico nos tempos de Jesus informa que vivemos dias muito parecidos.
Os judeus viviam sob o Império Romano, tinham na língua grega seu idioma popular, para o qual haviam traduzido do Hebraico todo o Antigo Testamento. Roma era o Império Político, mas sua cultura era plenamente influenciada pelo mundo helênico, que além da língua grega, deixara para Roma também a cultura. A filosofia grega era difundida, conhecida e sutilmente impregnada em toda consciência social da época.
Por isso, a atividade de reflexão da época era discursiva, baseada na filosofia que valorizava mais o pensamento que a atitude e que defendia que o livre pensamento era a maneira com que o homem transcendia e se relacionava com a divindade. Era comum que os homens se reunissem a partir de discursos.
Os fariseus apoiavam-se nessa construção filosófica onde o discurso é mais importante do que a prática e foi isso que Jesus denunciou.
Já o judaísmo, baseia-se na experiência, no relacionamento pessoal, na transformação interior que causa fatos exteriores. Os fariseus, apesar de guardarem e defenderem princípios legais interpretados a partir da Lei de Moisés, eram mais gregos que judeus em sua construção existencial, porque se apoiavam no discurso e não na prática.
Jesus, em meio a esse desvio da tradição dos fariseus, afirma que o processo de ensino cristão acontece naquilo que se faz e que deve ser imitado. Por isso ele ordena que seus discípulos façam discípulos de todas as nações e define o método: "ensinando a guardar todas as coisas" [Mateus 28.20], o que difere do pensamento grego que determinava que o mestre deveria ensinar todas as coisas, sem necessariamente ensinar como fazer.
O apóstolo Paulo, judeu em sua construção existencial que viveu a cultura grego-romana, afirma que deveria ser imitado, assim como imitava Jesus [1 Coríntios 11.1], demonstrando que entendeu perfeitamente o método judeu de ensino. O escritor aos Hebreus afirma que os guias espirituais devem ser imitados em sua fé [Hebreus 13.7]. E Paulo lembra seu discípulo Timóteo de que seu discipulado está baseado no conhecimento íntimo e pessoal, necessário para a imitação [2 Timóteo 3.10,11].
Assim, a prática cristã contemporânea deve se basear na tradução judaica de Jesus e não na filosofia grega. A filosofia influenciou nossa teologia,que influenciou nossa eclesiologia, que influenciou nossa práxis cristã. Temos sido gregos e não judeus, temos sido platônicos e não cristãos.
No cristianismo filosófico moderno o amor é platônico, a teologia é utópica, a prática eclesiástica é romântica e por conseqüência a prática cristã – experimentada no cotidiano – é fraudada pela consciência de que aquilo que é pregado não pode ser vivido, assim como os pregadores e líderes espirituais mesmo afirmam, de que o que pregam não é vivido integralmente.
Fato é que no cristianismo "cristão", ou seja, que está apoiado de fato na vida de Cristo, não há espaço para utopias e platonismos, aquilo que se prega e que se requer foi vivido pelo Mestre. Jesus lava os pés de seus discípulos para depois dizer que eles deveriam fazer o mesmo. Ele poderia ter dito, assim como os gregos, que os discípulos deveriam obedecer a sua ordem, mas sendo judeu, disse que deveriam imitar o que fazia.
Tudo o que o Evangelho afirma que devemos viver é possível ser vivido. Deus não blefou, como os filósofos que tratam de teorias e pensamentos. O cristianismo não é uma utopia impossível e romântica que eleva o padrão moral dos homens, mas que jamais poderá ser vivido. Isso me faz lembrar da história do professor de teologia que estava analisando o texto de Paulo que diz que seus leitores deveriam imitá-lo assim como Ele imitava a Cristo e um aluno o interrompeu para observar que Paulo fora arrogante em sua afirmação. O professor silenciou por alguns segundos e disse que se o aluno não poderia dizer o mesmo não deveria estar naquela cadeira, pretendendo o ministério. Para o professor, definitivamente, o evangelho não é uma filosofia, para o aluno, porém, o cristianismo é uma utopia que valida os blefes dos pregadores modernos.
Por isso, a Igreja Contemporânea deveria retornar às bases judaicas de Cristo para apoiar seu ensino e prática. Carecemos de mestres que nos ensinem como viver o evangelho e menos de pregadores e seus discursos inflamados que eles mesmos não crêem. Carecemos de uma experiência realmente comunitária, onde as expressões de louvor migrem do palco da performance dominical para as rodas e ajuntamentos dos dois ou três que cantem o sentido de sua fé e não as "dez mais tocadas na rádio gospel". Carecemos de ministração pessoal e relacional e não de orações feitas de si para si mesmos, que promovem discursos infundados e retóricos e que fazem com que as orações simples do dia a dia se transformem em "mantras" vazios de significado para cumprir protocolo religioso antes de refeições em família.
Carecemos de menos discurso, de menos congressos que promovem figurões e estrelas do mundo evangélico-gospel.
Que a teologia filosófica grega dê lugar à teologia cristã judaica. Menos Platão e mais Cristo, para a glória de Deus, para que o evangelho seja vivido.