CETICISMO SAUDÁVEL - 5 DE 5
Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo. E creram muitos...
Atos 17:11-12
Já disse que uma boa dose de ceticismo não faz mal a ninguém; disse também que o ceticismo filosófico levado ao extremo nos tira de uma "ilusão" e nos larga flutuando no meio do nada.
Já disse que a palavra da vida – Jesus – foi tocada, ouvida, vista e contemplada, e que isso é o que nos firma em uma realidade que torna desnecessária o questionamento cético; disse também que Tomé não deve ser o padroeiro dos céticos que querem continuar céticos, pois ele pediu para ver e tocar e, no final, creu.
Já disse que o ceticismo aplicado à ciência vem disfarçado de método, o que esconde um naturalismo subjacente que muitos céticos ignoram ou preferem ignorar; já disse que os céticos fazem boas perguntas, mas que não têm boas respostas.
O empate cético não me satisfaz. De alguma forma, anseio por um espírito nobre. É que aprendo com os moradores de Beréia.
Paulo e Silas estão viajando de cidade em cidade para espalhar o cristianismo. Passaram em Tessalônica e depois foram para Beréia; lá encontraram gente interessada em na mensagem que pregavam. Bom sinal.
Com sua costumeira precisão histórica, Lucas (o autor do livro de Atos) nos brinda com a informação de que os bereanos não dispensaram uma análise cuidadosa e disciplinada da mensagem de Paulo e Silas. Antes, leram os textos do Antigo Testamento que Paulo citava e iam lá conferir se era isso mesmo. Eles ficaram contentes com as boas-novas, mas nem por isso jogaram o cérebro e a precisão fora em nome de uma fé cega. Em vez de questionar, a Bíblia afirma que os bereanos eram mais nobres que os tessalonicenses. Parece que gente com a dose certa de ceticismo não incomoda Deus, parece mesmo que ele até prefere gente assim.
Mais uma vez vemos gente inquisidora examinando as coisas e, no fim, encontrando a fé. Estes descobriram que aquele objeto de fé – o Jesus a quem Paulo pregava – resistia a seus questionamentos. Afinal, fé boa é aquela que se firma sobre um objeto sólido, por assim dizer. O que passa disso é crendice.
Esta tem sido minha experiência: quanto mais questiono a Bíblia e a validade do Deus nela descrito, mas confiante fico no que leio. Digo isso porque o mundo torna-se um lugar mais inteligível quando o enxergo com as lentes que adquiri lendo a Bíblia. Mais do que um mundo real, encontrei em suas páginas esperança para superar o que é ininteligível nesse mundo. Mais do que descrever como o mundo é, a Bíblia também aponta como o mundo deveria ser e que um dia a plenitude tão desejada vai virar realidade.
De onde vem tanta confiança? De usar meu ceticismo indiscriminadamente e verificar que a Bíblia é mais "pé no chão" do que as alternativas. Já fiz como o Tomé duvidoso; sou hoje como o Tomé que viu, tocou e creu.
Quero ser tão nobre quanto os bereanos. Sigo o exemplo deles submetendo a Bíblia a um exame crítico, como se ela sempre fosse culpada antes de se provar inocente. Mesmo usando um critério mais rigoroso do que normalmente usado no ceticismo cotidiano, fico impressionado com o vigor de suas propostas. O mundo se revela em toda sua crueza; o mesmo acontece com a esperança.
Foi assim que aconteceu comigo. Agora tenho a vontade de ver todos os céticos andando por ele. É esse meu convite.