Para entender melhor, seria bom se você lesse o texto anterior – "O que é um cético?"
Já disse que o ceticismo é uma abordagem que não me satisfaz, pois ela depende de uma suspensão do juízo que não consigo aceitar. Eu não me satisfaço com o empate entre o filósofo do senso comum e o filósofo cético. Há alguma coisa dentro de mim que anseia por um conhecimento sólido e seguro sobre o qual construir uma vida com significado. Eu quero crer que uma pedra é uma pedra, que tenho uma mente de verdade, que as pessoas com quem me relaciono existem e também possuem mente, que é possível transmitir pensamentos e afetos de uma mente para outra, embora esse processo esteja longe de ser perfeito.
Sabe uma coisa que me incomoda em relação aos que adotam a posição cética? É que eles fazem perguntas muito boas, mas não costumam dar respostas tão boas às próprias perguntas. Isso me parece especialmente verdadeiro quando se trata do ceticismo aplicado à ciência.
Penso que o grande problema do embate entre ciência e religião se deve ao fato de que muitos cientistas pensam que as abordagens científicas são tão precisas quanto os métodos científicos. Isso fica evidente na declaração cética da revista Skeptic, pois eles tratam o ceticismo como um método, uma abordagem prévia, e nada mais do que isso. É aqui que as coisas entortam. Na minha opinião, a discussão sobre a validade do método científico é filosofia da ciência, não a mera aplicação de um método. O método científico pode ser preciso, mas quando discutimos sua capacidade de produzir conhecimento confiável a discussão passa a ser filosófica. Discuta temas filosóficos como se fossem "apenas" um método: é a receita perfeita do angu de caroço. Fazer ciência não é o mesmo que fazer filosofia da ciência. Em outras palavras, o cientista que entra todos os dias em seu laboratório para produzir conhecimento precisa se preocupar com seus procedimentos e com a exatidão de suas medidas, sejam estas a quantidade de neurotransmissores em uma fenda sináptica, a intensidade do efeito Doppler que mostra o afastamento de corpos celestes ou uma simulação computadorizada da interação de duas espécies concorrentes em um terreno com recursos escassos. Quando esse mesmo cientista se aventura a discutir a validade epistemológica – ou seja, se o conhecimento que produz é válido – ele pisou no terreno da filosofia da ciência. Raras foram as vezes que os cientistas perceberam essa diferença crucial. A arrogância vive à espreita desses.
O resultado é levar para a filosofia a mesma confiança desmedida que nós ocidentais atribuímos à ciência. Basta dizer que algo é científico para que nossos ouvidos treinados ouçam "está confirmado com exatidão". Os sucessos da ciência são inegáveis, algo que me enche os olhos. Mas é preciso reconhecer que a ciência está muito longe de responder muitos de seus próprios questionamentos ou de superar a imprecisão. Então, por que tanta confusão?
Quando levado a extremos – só sei que nada sei – o ceticismo é seu próprio algoz: "Tal posição é estéril, improdutiva e quase ninguém a aceita". Ou seja, o cético hard-nosed precisa afrouxar as exigências a fim de conseguir espaço para pensar ou mesmo para pesquisar. Afirma que não há espaço para as vacas sagradas, mas eles mesmos abrem a porteira para algumas vacas que parecem ser sagradas – as tais hipóteses provisórias. Caso contrário seus esforços se provariam ineficientes e ficariam esvaziados de autoridade. Eles não querem ser vítimas da paralysis by analysis, mas comprometem a integridade de seus argumentos ao fazer isso. Mas estão esquecendo que essa atitude tira deles a confiança exagerada que têm em seu próprio ceticismo. Não é possível julgar uma parcialidade falando de dentro de outra parcialidade.
Por fim, a abordagem cética para a ciência não costuma reconhecer o naturalismo que se esconde por trás do argumento do "método". "Tudo o que de pode afirmar deve ser antes confirmado por métodos que aceitam exclusivamente causas naturais (ou materiais": essa idéia pode parecer científica, mas no fundo ela é uma posição filosófica, um a priori ou uma petição de princípio. Quem disse que apenas o naturalismo – ou o materialismo, seu irmão gêmeo – pode dar conta de toda a realidade? E se alguém fez tal afirmação, pode provar? É o que quero saber (talvez eu tenha nascido no Missouri e não sabia disso). "Quero ver primeiro" a prova de que o naturalismo dá conta de explicar tudo antes de eu me render à sua hegemonia no meio científico.
Não é irônico que um cristão, que acredita na Bíblia, em Deus e na criação, coloque em cheque o naturalismo da ciência usando as próprias armas do cético?
Eu adoro isso...