SEU GUEDES

 

Continua no post abaixo


 

Wilson Guedes Ferreira é o nome do meu pai, mais conhecido por "Guedes". Também adotei "Guedes" como sobrenome favorito. Marson Guedes prá lá, Marson Guedes prá cá; nada de Ferreira.

Não é muito fácil escrever a respeito do Seu Guedes. Embora a coisa toda pareça distante, sempre foi um relacionamento intenso e conflituoso. Sem melação, nada de grude; muitas expectativas que não foram atendidas. Nós dois temos do que reclamar.

Meu desempenho escolar é um exemplo perfeito de como as coisas funcionam. Na opinião dele, eu sou tão inteligente que seria mera obrigação só tirar a nota máxima em todas as matérias (preciso mencionar que discordo dessa avaliação?). Na minha opinião, se eu precisasse de uma nota 6,0 para passar e conseguisse 5,75 já era suficiente: nessa conta, a nota obtida seria arredondada para cima e tudo ficaria bem. Não me lembro de ter ido realmente bem em nenhum ano letivo, nem mesmo na faculdade; até repeti o segundo ano do curso técnico. O mistério fica por conta das notas obtidas nas matérias do mestrado e do doutorado, quase todas elas "A". Mas, a essa altura do campeonato, eu não precisava mais mostrar meu "boletim" para meu pai. Quando eu finalmente consegui o que ele queria, meu pai não estava lá para ver.

Seu Guedes tinha claro em sua mente que precisava domar esse meu espírito livre e isento de ambição acadêmica. Isso me livraria de uma vida medíocre. Uma de suas perguntas preferidas era "Você quer virar um desses que cava buraco na rua para consertar esgoto?" – havia uma estação da Sabesp a duas quadras de casa. Eu sempre fingia que isso não me abalava.

Seu desejo foi atendido – não me considero medíocre nem cavo buracos na rua –, mas o caminho foi completamente diferente do que ele pretendia. Lembro com vividez uma das incontáveis vezes em que ele tentou conversar comigo para ver se eu tomava jeito. Lá pelas tantas – as conversas dificilmente duravam menos que meia hora – eu perguntei por que ele não me deixava falar nada. A resposta pronta e certeira foi: "Porque se ficar falando, você vai me enrolar e eu preciso te educar". Eu devia ter 9 anos. Isso explica muita coisa.



Categoria: Miscelânea
Escrito por Marson Guedes às 22h43
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SEU GUEDES

 

Continuação do post anterior


 

Herdei do meu pai habilidades manuais, sou jeitoso com as coisas, gosto de ferramentas e normalmente sei como usá-las. Sou um exímio afiador de facas, uma habilidade muito valiosa para meu hobby gastronômico. Por sua vez, meu pai herdou essa habilidade de meu avô, que construiu boa parte das serrarias a vapor quando começou a exploração de madeira no Paraná. O maquinário era inglês, e ele era um dos poucos que conseguia montar tudo, fazer funcionar e consertar quando necessário. Ele mesmo fabricava muitas peças. Dos cinco filhos, meu pai era o único que tinha permissão para usar as ferramentas, pois meu avô era do tipo que sabia, só de olhar, se as ferramentas estavam em lugar diferente do que ele as tinha deixado. Seu Guedes também é um marceneiro de mão cheia, só não faz o que não quer. Ao contrário dele, eu sempre deixava as ferramentas fora do lugar.

Minhas irmãs, sobrinhas e esposa ganharam do Seu Guedes uma caixinha para guardar jóias, um capricho só. Foram feitas de uma peça única de peroba, que ficou secando por mais de 20 anos. O grosso do entalhe foi feito com furadeira, mas todo o resto no formão. Não se vê defeito, até os veios da tampa e do corpo se harmonizam. A tampa foi retirada do corpo no serrote – você já tentou tirar com serrote uma prancha precisa, com menos de 2 centímetros de altura, usando uma viga com mais de 10 centímetros de largura? Ah sim, claro, o mecanismo do fecho foi ele que inventou.

Diz a lenda que meu avô lidava bem com policiais e com os jagunços que bandoleavam por aquelas regiões do interior do Paraná. Uns não sabiam dos outros, e os dois grupos gostavam do meu avô, o Seu Amado. Tendo trabalhado pelo menos 30 anos em uma multinacional e bem mais do que isso em uma igreja protestante, meu pai também sabia distinguir os policiais dos bandoleiros. Nada escapa àqueles olhos miúdos e precisos. Assim como ele, eu também sei descascar uma pessoa com meus comentários sarcásticos e avaliações precisas. Minha maldade normalmente se expressa em uma língua ferina, um chicote preciso que abre feridas onde quer que atinja. Há quem goste de tacos de beisebol, mas eu prefiro procedimentos cirúrgicos para abater quem me desafia. É contra esse "espírito dos Guedes" que preciso lutar diariamente se não quiser fazer da vida dos circunstantes um inferno.

Vô ranzinza, pai exigente, filho idem.


 

Sabe o que mais me irrita no meu pai? É que eu sou muito parecido com ele.

É aquela antecipação de gestos e de pensamentos, a conversa que vira um duelo de palavras, as provocações pelo simples prazer de esgrimar argumentos. A necessidade de ser tão veloz já me livrou de muitas nessa vida.

Meu bisavô Joaquim, pai do Vô Amado, certa vez enfiou um tição em brasa na boca do meu tio-avô José por ele ter respondido o que não devia. Ficou com a boca deformada desde então. Eu me pergunto que marcas isso deixou no meu avô. Embora nunca tenha feito coisa semelhante com meu pai, ele nunca o pegou no colo. Eu me pergunto que marcas de desafeto isso deixou em meu pai.

Há um momento na vida em que você precisa decidir se vai reeditar o que recebeu dos pais ou se vai adiante daquilo que eles conseguiram te entregar. Meu bisavô deformou a boca de um filho, meu avô nunca pegou meu pai no colo, meu pai foi bem melhor que isso. E eu, o que faço?

Vô alheio, pai severo, filho idem.

Se você me conhece um pouco, já entendeu muito.


 

Decidi que, para honrá-lo, precisava ir adiante. Se ele chegou onde chegou com a herança que recebeu, entendi que é minha obrigação manter a tradição de ir além e fazer o máximo com a herança que recebi. Superação: essa é a palavra. Não importa quão conflituosa seja minha relação com ele, sei que ele fez o que podia, que as faltas e ausências se devem ao esgotamento dos recursos. Ele saiu de Tupã, cidade no interior de São Paulo, para desbravar a cidade grande e selvagem. Ganhou uns trocados doando sangue e os usou para comer. Eu estudei em ótimos colégios – Escola Técnica Federal, USP – e devo a mim mesmo ir além, romper barreiras. É assim que tento ser um bom filho, mesmo reconhecendo em mim muitas das limitações que só enxergava nele. Continuo seco, pouco efusivo, nada melado nem grudento. Nem há espaço para ser diferente. Mas hoje existe uma atmosfera de satisfação que não é verbalizada, densa mesmo sendo invisível. Isso me basta. Eu aprendi a entendê-lo, acho que ele já ficou minimamente satisfeito com o que já alcancei. É assim que nós prosseguimos. É algo bem melhor do que jamais tivemos.


 

Não ligo para datas, não estou nem aí para meu próprio aniversário. Mas achei que o dia dos pais seria uma boa oportunidade para registrar o que até hoje ficou guardado. Não sei se voltarei a escrever coisa semelhante; acho que não. Nem será preciso.

Sei que as palavras indomadas funcionam como o chicote que abre talhos na carne; mas, se elas forem devidamente domesticadas, podem trazer alívio e cura. É essa minha esperança.



Categoria: Miscelânea
Escrito por Marson Guedes às 22h42
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YESTERDAY

 

Por Brooke Olivares (link).

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 14h18
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LADRÃO

 

Você roubaria o carro ou o cadeado?

 

 

Quem disse que não vale a pena negociar com bandido?

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 14h11
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RENANTOUILLE

 

Por Fernandes (link).

 



Categoria: Miscelânea
Escrito por Marson Guedes às 14h46
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CHILIQUENTO

 

O espanhol mimado reclamando do primo inglês do Robinho. Por Gustavo Duarte (link ao lado).

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 14h43
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HELENA MEIRELLES, A VIOLEIRA

 

Por Fernandes (link).

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 01h46
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CÉTICOS E CÉTICOS - 1 DE 5

 

Uma dose de ceticismo não faz mal a ninguém. A credulidade, simplista como é em seus julgamentos, soa aos meus ouvidos como um xingamento, um defeito da racionalidade que aceita as coisas como lhe parecem ser. "As aparências enganam", é o que dizemos. Parece ser verdade em relação aos fatos e às pessoas.

Os céticos costumam ter calafrios diante de afirmações universais. Em algum livro do Rubem Alves – não lembro qual – ele afirma que se sente diante de um inquisidor em potencial sempre que alguém lhe diz "Estou convencido que..." Quem é essa pessoa – ou qualquer outra pessoa – para ser dona da verdade?

O discurso religioso é um terreno especialmente fértil para a credulidade. Ouvi o R. R. Soares falar na televisão uma pérola digna de nota. Ele abriu a Bíblia no Novo Testamento – acho que era a carta que Paulo escreveu aos Efésios – e fez menção de que o sermão seria sobre um ou dois versículos dali. Qual não foi minha surpresa quando ele tirou da cartola de mágico ilusionista o seguinte raciocínio: "Irmãos, nós sabemos que nem tudo o que Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso está registrado na Bíblia. Ora, foi o Espírito Santo que iluminou Paulo para escrever aquela carta. É por isso que agora vamos pedir ao mesmo Espírito que nos revele aquilo que Paulo não escreveu...". A conclusão é rápida e certeira: o "missionário" usou um livro do Novo Testamento para dar início ao seu sermão, e isso daria credibilidade às suas palavras. Em seguida ele sorrateiramente incluiu uma observação sobre a incompletude do livro para então pedir que fosse revelado a ele os mistérios não escritos. Ora, o objetivo é um só: dar uma falsa capa de autoridade bíblica para aquilo que ele mesmo queria dizer. A honestidade com o texto que se lasque. E todo o povo ali sentado pareceu comprar aquela mensagem.

Usei meu ceticismo – "Será que é isso mesmo que está na Bíblia?" – e ele me forneceu uma blindagem contra a manipulação. Fiz certo. Pudera eu ver mais gente com a mesma atitude.

É sempre bom confiar desconfiando. Afinal, parece que sempre tem alguém querendo maquiar a verdade para tirar proveitos dos crédulos e incautos que povoam o mundo.


 

Como posição filosófica, o ceticismo afirma que não é possível justificar nenhuma verdade e nenhum conhecimento. Não é possível fazer nenhum julgamento de verdade, pois o contrário da verdade nunca pode ser provado. Converse com um cético versado em filosofia e ele vai, em poucos minutos, destruir todas a crenças que você considera mais preciosas. Você vai dizer que sua opinião tem lastro na realidade, mas ele vai retrucar que o bom senso não é um bom guia, pois você pode ser iludido até mesmo nas coisas mais elementares. Ele provavelmente dirá que não há como se certificar de que a percepção que você tem quando vê um objeto vermelho é a mesma de outra pessoa quando vê esse objeto do mesmo ângulo. Talvez na mente da outra pessoa o objeto seja azul, mas ela aprendeu a dar o nome de "vermelho" àquela cor. Os sentidos nos enganam. As cores mudam quando as condições de iluminação mudam, uma mesa redonda parece ser oval quando a olhamos na diagonal. Nada disso é um terreno firme para que a verdade floresça. Quem pode garantir que suas percepções, experiências e vivências não passam de informações ultra-complexas fornecidas por um super-computador, e que "você" não passa de um cérebro boiando em um líquido nutriente dentro de um balde, cheio de fiozinhos e conectores? Já sei, você pensou no filme Matrix, certo? Bem, essa parece ser a descrição do mundo segundo os irmãos Wachowski.

Pense no que isso significa para uma pessoa. E se aquele beijo apaixonado não passou de impulsos artificiais fornecidos ao seu cérebro boiante? E se aquela memorável noite de sexo nunca aconteceu de verdade? E se a alegria do seu cachorro quando te vê nunca existiu? E se tudo não passa de uma ilusão perpétua, da qual nunca conseguimos acordar? E se...

Se a ausência de ceticismo é o vício da credulidade, o exagero se parece mais com uma regressão infinita à incerteza.

Resta saber como os céticos extremados convivem com isso.


 

Nós vamos voltar a esses aspectos do ceticismo. Por enquanto quero dizer que sempre solto um risinho contido de satisfação toda vez que alguém menciona Tomé como o santo padroeiro dos céticos. Foi ele o discípulo que teve coragem de dizer o que possivelmente muitos estavam pensando: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei" (João 20:25). Havia muita coisa em jogo, ou seja, acreditar ou não que Jesus tinha ressuscitado dos mortos. Muitos estavam dizendo a mesma coisa, mas Tomé, que ainda não tinha visto Jesus, precisava mais do que isso para crer. Ele precisava tocar as evidências: as marcas dos cravos (um prego gigante, usado para prender malfeitores na cruz) nas mãos e nos pés, além da marca da lança do soldado romano que furou um dos lados do corpo de Jesus.

Meu risinho sardônico se deve ao fato de Tomé ter acreditado, pois Jesus ofereceu-lhe as evidências de que ele precisava, e o fez voluntariamente. Nada de sermões condenatórios, apenas as evidências para acalmar um coração atormentado pela dúvida. Jesus se contentou com uma leve repreensão: "Pare de duvidar e creia". E Tomé creu.

Se Tomé é o padroeiro dos céticos, parece que eles estão fadados a acreditar até mesmo que um homem que se dizia Deus pode voltar dos mortos, vencer a morte. Se o cético quer continuar cético, que arrume para si um padroeiro com final mais triste.

O ceticismo de Tomé o conduziu à fé. Mas fé em quem, ou em quê? Há uma realidade "sólida", por assim dizer?

É o que vamos discutir.



Categoria: Filosofia
Escrito por Marson Guedes às 01h36
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EMÍLIA

 

Por Rodrigo Rosa (link).

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 13h04
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LULA, LULA & LULA

 

Alguém aí sabe do Lula? Ele também não. Coisas do Duke (link).

 

 

 



Categoria: Miscelânea
Escrito por Marson Guedes às 14h49
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DUAS TIRAS

 

Todas do Benett (link).

 

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 14h46
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DUAS AQUARELAS

 

Por Cárcamo (link).

 

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 00h40
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SÓ É ACIDENTE QUANDO É ANUNCIADO

 

© 2007 Alexandre Robles (link)

 

Quando você construir uma casa nova, faça um parapeito em torno do terraço, para que não traga para sua casa a culpa pelo derramamento de sangue inocente, caso alguém caia do terraço.

Deuteronômio 22.8

 

Correr riscos se tornou parte integral de todo o desenvolvimento humano. Depois que percebemos que era necessário construir pontes, prédios e equipamentos capazes de nos transportar para terras distantes em cada vez menos tempo, correr riscos é natural.

O que não é normal é que além do risco natural que o desenvolvimento implica, fabriquemos novas possibilidades de tragédia, como quem planeja ou espera que o pior aconteça.

Este texto poderia ser escrito hoje de outra maneira. Se você for construir um prédio no Japão, ele deve estar preparado para tremores de terra. Se você for construir casas no litoral, elas devem ficar distantes da praia. Se você precisar de aeroportos em sua cidade não os construa entre os prédios, próximo de avenidas movimentadas e construa-o com pistas dezenas de vezes maiores que o necessário, com imensas áreas de reserva e rotas de fuga. Porque tragédia que foge ao controle e planejamento é acidente, mas quando é avisada, anunciada, calculada, é culpa mesmo.

Viver é assumir riscos. Colocar-se em riscos desnecessários é demonstração da inabilidade humana em vencer os limites éticos entre o melhor para as pessoas e o melhor para os mais variados interesses, dentre os quais o maior é o lucro. E isso vale para aeroportos, casas, casamentos e qualquer outro empreendimento existencial.

Em Luto com as famílias das vítimas do vôo JJ3054 da TAM.



Categoria: Miscelânea
Escrito por Marson Guedes às 12h39
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CRÔNICA DA VIDA CORPORATIVA

 

Por Mauro Souza (link).

 



Categoria: Afins
Escrito por Marson Guedes às 12h35
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