Samuel era um homem sábio

O grande Samuel tremeu, é minha única saída interpretativa. Nem ele, acostumado havia décadas à intimidade com Deus, engoliu pacificamente esta história de Deus se arrependendo. A reação de passar a noite em claro clamando a Deus é um sinal seguro de que ele fez a equivalência entre arrependimento e erro divino. Deus não pode errar, pode? Não. Mas ele pode sentir uma tristeza imensa de ver um plano seu indo para o buraco por causa da dureza de um súdito, certo? Certo? Então, para salvar a infalibilidade de Deus, Saul não poderia ter sido uma escolha errada. E Samuel tremeu diante da possibilidade de Deus ter pensado "Ih, acho que não escolhi direito o rei do meu povo. Vou ter que fazer um remendo". Eu teria tremido.

Mas não há motivo para alardes. Como disse antes, é bom cuidar da interpretação do texto antes de sair tirando conclusões apressadas. Também em hebraico, a língua na qual este texto foi originalmente escrito, os verbos traduzidos por "arrependimento" têm dois significados: o de profunda tristeza ou remorso pelo ocorrido, ou reconhecimento de erro. Assim, na minha opinião, Deus estava dizendo para Samuel "Nossa, que tristeza é ver esse Saul dando estas mancadas", e Samuel ouviu "Nossa, Samuel, eu errei colocando esse tal de Saul para ser rei... e agora? Será que o universo vai descompensar?" Numa reação compreensível, Samuel mostra seu conflito na divergência entre o que fez e o que disse: ele obedece a Deus integralmente condenando Saul, mas precisa afirmar em voz alta que Deus não se arrepende, que ele não erra e que, portanto, não precisa voltar atrás. E tudo para ser informado novamente de que Deus tinha mesmo se arrependido com a história de Saul.

Sinto-me inspirando por este coxear de Samuel entre interpretações díspares para o arrependimento. Se o grande Samuel tremeu, então eu posso tremer sem sentir vergonha da minha tremedeira. E, se Samuel obedeceu na tremedeira, vejo que o entendimento completo da situação não é prerrequisito para fazer o que é certo. E, por fim, se Deus não chamou a atenção de Samuel por este deslize, eu também não sofrerei as sanções divinas. É um alívio.

O desafio agora é outro, a saber, o de aprender a conviver com um Deus que reputamos perfeito, mas que escolhe um rei que ele mesmo rejeita, para então colocar outro e seguir a vida, e tudo isso sem considerar-se falho. Vejo numerosos exemplos bíblicos de Deus se entristecendo por não conseguir levar sua parceira com os humanos ao nível que sempre desejou, mas nunca vejo esse Deus socando a mesa com um misto de raiva e frustração enquanto diz "Nossa, errei de novo!" Ele, o grande Rei, não se abala como Samuel se abalou.

Creio que a saída para nosso convívio pacífico com o arrependimento divino é o protagonismo humano. E é para lá que vamos.

Deus se arrepende?

Um pensamento sobre o arrependimento de Deus:

Aí está escrito o que eu gostaria de dizer.

Disse que Deus sim se arrepende, mas o arrependimento da dor no coração de ver seus humanos se comportando como bichos, ou sendo menos do que poderiam ser. Por algum motivo de mistério, Deus usou sua soberania absoluta para entrar em aliança conosco e deixar parte de seus planos em nossa mão. Receita de decepção certa. Mas ele segue firme com esta opção.

Esta é a boa notícia: Deus vê com bons olhos o nosso protagonismo. Nós podemos olhar para o mundo que nos rodeia, fazer uma avaliação, examinar nossos desejos e esperanças, e traçar rumos para nossa vida, sem que nada disso signifique rebeldia contra esse vapor evasivo que chamamos de vontade de Deus. Saul evadiu-se da responsabilidade, Davi naturalmente a assumiu. É Davi que sobrevive como exemplo a ser seguido.

A vontade de Deus existe, claro, mas ela é bem menos definida do que costumamos imaginar. Há momentos na vida cristã em que esta vontade é clara, cristalina, fácil de captar, mas são momentos raros. Normalmente somos deixados numa generalidade que nos angustia, pois não sabemos ocupar o amplo espaço que nos foi entregue. Quando erramos nas questões morais, normalmente é porque relutamos em aceitar nossa responsabilidade pelo futuro.

Quero dar três exemplos pessoais.

Creio que sempre tive talento para escrever. As pessoas gostam das coisas que escrevo desde bastante tempo. Uma pessoa com talento pode fazer mais do que seus pares que carecem deste talento, mas ela não vai longe se comparada com aquilo pode fazer caso se dê ao trabalho de burilar este talento. Eu decidi que iria assumir uma disciplina de escrita para que o talento que recebi fosse aperfeiçoado. Com este blog, já completo 4,5 anos escrevendo em média um texto por semana. Minha escrita já melhorou muito neste tempo. Na minha avaliação, já passou por dois grandes saltos qualitativos. E eu não quero parar por aqui. Sigo na ânsia de escrever, escrever e escrever para escrever cada vez melhor. Nunca consultei Deus para saber se esta era a vontade dele. Pareceu-me o caminho mais sensato a seguir se quisesse dar um lustro às minhas letras.

As pessoas costumam me procurar quando precisam conversar sobre assuntos difíceis e, por algum motivo que me escapa, tendem a abrir lugares de sua alma onde habitam a vergonha e a maldade. Elas pedem ajuda, e eu as ajudo. Não que me sentisse especialmente dotado para a tarefa, nem que tivesse recebido um comissionamento divino para tanto. Não. Simplesmente as pessoas me procuram, eu converso com elas, e o resultado na maioria das vezes é que as pessoas melhoram. Eu nunca perguntei para Deus se era da vontade dele que eu aconselhasse as pessoas na igreja ou fora dela. Isso simplesmente aconteceu. Eu entendi o padrão, e segui feliz nessa direção, mantendo-me como uma opção para as pessoas com dores de alma.

Por fim, aprendi logo que as pessoas gostam de aprender da Bíblia comigo. Por algum motivo que me escapa, eu falo das coisas que enchem meus olhos e as pessoas prestam atenção. Às vezes ouço "Lembro até hoje daquela aula, cinco anos atrás". Não, Deus nunca me disse que eu deveria ser "varão poderoso na Palavra". Não. Bem ao contrário. Quando comecei a identificar os tesouros escondidos na minha Bíblia, fiquei tão empolgado que orei pedindo forças e inteligência para compreender mais e mais, e assim ter condições de ensinar de maneira cada vez mais eficiente e relevante. Sim, recebi confirmações em momentos de dúvidas, mas as confirmações só vieram depois que já estava na estrada fazia muito. Tivesse esperado Deus para começar a ensinar a Bíblia, estaria esperando até hoje.

O belo disso tudo é que minhas percepções, da quais Deus não participou com milagre nem com sinais, se confirmaram à perfeição. Depois de estudar um Deus que se arrepende, fiquei feliz da vida ao perceber que nosso protagonismo honra a Deus em vez de diminuir sua importância no esquema geral das coisas. Desde o dia em que comecei a me responsabilizar pelo futuro da minha e de como influencio as pessoas para o bem, nunca perdi uma noite com esta etérea e disforme "vontade de Deus".

Deus tem a história nas mãos, e a levará até o ponto em que ela será perfeitamente restaurada. As lágrimas serão enxugadas e a morte não mais existirá. Neste plano geral existem inúmeros espaços que Deus deixa abertos para que nós os ocupemos responsavelmente. E é aí que encontraremos nossa relevância.

Se Deus entregou este mundo para que nós cuidássemos dele, nada menos do que isso o alegrará, nada menos do que isso nos realizará. Vençamos a preguiça, assumamos a responsabilidade pelo futuro.

Amém.

REFLEXÕES DE UM TIOZÃO

A escrita como ela é:

Sou um típico tiozão. 42 anos que a careca não ajuda a esconder, aquela barriguinha insofismável de quem prefere o ócio criativo à corrida, manias que denunciam a vecchiaia. Salvam-me da aparência decadente os olhinhos miúdos cheios de curiosidade pela vida e a gostosa da minha esposa. Entro em qualquer ambiente e logo capto o pensamento das pessoas: "Como foi que um cara desse conseguiu uma mulher dessas? Deve ser rico..." Já nem tento explicar, optei pelo simples desfrutar.

Ah sim, as manias. A lanterna para o caso de apagão precisa estar na parte inferior esquerda da porta direita da estante da sala, com a lente virada para baixo, que é para não riscar. Backups gerais, do trabalho do dia e do Outlook precisam estar em dia e em mais de um lugar: no pen drive que carrego comigo, no pen drive que fica no escritório, no HD externo que mantenho em casa. Tudo bonitinho, no lugar certo, na hora certa. E tudo limpo: é o pincel macio, com uma polegada de largura, que uso o dia inteiro para tirar o pó do teclado. Não suporto pó no teclado do notebook. Vai vendo.

Tiozões têm um apego saudosista em franca expansão, entraram num tempo em que começam a dizer "Na minha época não era assim, os jovens eram outros". O tom é negativista, claro. A pior frase é "Já não se fazem blá-blá-blás como antigamente". Tiozões assim fazem jus ao ditado popular "Cachorro velho não aprende truque novo". São discos riscados. Deus me livre.

Eu tive sim esta fase tiozão, que adora criticar o jeito dos jovens escreverem no MSN, ou a falta de concentração da molecada Y, ou a empáfia despeitada de quem foi obrigado a pesquisar a Barsa, não o Google, para fazer os trabalhos da escola.

Digo-lhe que minha vida mudou. Você olha para mim e vê um tiozão, mas as coisas mudaram.

Coisas?

Eu já tinha um blog, e tinha feito um twitter para falar do blog. Novato no Facebook, peguei-me surpreso na improvável diversão de olhar fotos dos outros, na imprevista possibilidade de escrever coisas estilosas debaixo das minhas fotos, uma espécie de micro-gênero literário de comentário de mural. Numa das últimas que coloquei tinha um siri. Escrevi "Será que o siri sabe onde quer í?" Só "í" mesmo, de brincadeira linguística. Numa foto toda sonada do Toy, meu maltês, brinquei escrevendo que ele estava em crise existencial por estar deitado num edredon velhézimo com desenho o Piu-Piu. Não sabia que podia ser tão divertido.

Aliás, se estou me divertindo com estas coisas, prova maior não há de que mudei para melhor.

Semana que vem vou conhecer o pessoal de uma rede social dedicada a soluções mobile de todo tipo, justo eu que uns anos atrás me orgulhava de olhar com olhar superior quem curtia recursos celularísticos. "Pra quê tanta coisa num celular? Só precisa ligar e receber ligação..."

Sinto-me vivo, ditosamente livre do ranço ranzinza que parece acompanhar os tiozões. Ao contrário daqueles que desantenam do mundo que gira veloz, resolvi aproveitar tudo o que a geração antenada tem para oferecer. Nem sei bem dizer o que foi que me salvou. Nem estou preocupado com isso. Estou achando viver mais legal do que explicar.

Sou quarentão, mas aprendi uns truques novos. Convenhamos, ninguém disse que cachorro velho tem que ser cachorro chato. E posso guardar comigo a satisfação de saber que alguns truques muito bacanas só cachorro mais velho sabe fazer.

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