DEZ ANOS
"Sim", ela disse. "Sim", eu disse. Estávamos casados. Faz dez anos.
Quis o propósito divino que ela não se incomodasse com minha barba por fazer, ou que fosse ciumenta do ciúme ruim.
Foi do bom propósito celeste que aprendêssemos a apertar um a mão do outro quando algum esquisito ou mal vestido passasse perto de nós - shopping, rua, igreja. Ninguém fica sabendo, só nós, que nosso mundo é compartilhado. Bobo? Não. Leva dez anos para combinar coisas assim.
As forças celestes também sopraram ventos auspiciosos, pois minha linda é linda e forte, sem melindres e decidida. E nos momentos mais sensíveis, sinto que ela é minha, aconchegada diante da televisão ou olhando um olhar cuida-de-mim. E eu cuido, do meu jeito, que é o jeito que eu sei. Ela gosta.
Quis o bom destino que ela fosse meu tipo. Detalhes morrerão comigo.
Quis o destino bondoso que hoje minhas palavras fossem amenas, das que só servem quando se vence o medo, decepções e fracassos. E é por isso que estas amenidades são tão seguras. O vento no rosto é ameno, o barco não pode ser. Amenidades vindas das alturas.
"Sim", ela disse. "Sim", eu disse. Estávamos casados. Faz dez anos. Estou feliz. Agora conheço mais do amor. Vivas aos céus.

Junho de 1999

Junho 1999

Maio 2009