SOBRE ESSE NEGÓCIO DE PROVAR A EXISTÊNCIA DE DEUS - PARTE 5
Pense comigo. Por um lado, não existe nenhum experimento científico que possa comprovar ou negar definitivamente a existência de Deus. A ciência simplesmente não alcança estas alturas. Por outro lado, há quem afirme a inexistência de Deus pelo fato de não ser atendido em algum pedido extremamente importante, comumente com um forte componente afetivo (aquela história de "Deus, se o senhor existe mesmo, livre meu pai da morte"). Por estas e outras não acho mais que provar a existência de Deus seja uma atividade relevante ou coerente.
Não me entenda mal. Deus costuma ser muito importante na vida da maioria das pessoas, mesmo daquelas que o negam, pois é preciso o tempo todo se referir a Deus para negar-lhe a existência. Quero dizer que a ênfase na prova é improdutiva e desnecessariamente árida. Por isso cheguei à conclusão de que a existência de Deus é uma questão afetiva, não uma questão intelectual.
Não me entenda mal, nem me jogue na cara essa conversa furada de que a fé milita contra a razão. Isso é um maniqueísmo típico de quem leu muito e raciocinou pouco. Estou dizendo que, em termos afetivos, a razão simplesmente não tem forças para alcançar as alturas desejadas. Assim, rogo "valha-me Carl Sagan!".
Já assisti inúmeras vezes o filme "Contato", baseado no romance de mesmo nome escrito por Carl Sagan, famoso astrônomo e divulgador da ciência. Ele é conhecido por seu ceticismo e crítica ao fundamentalismo religioso. Sempre que pode dá uma alfinetada nos crentes usando o alfinete da razão crítica que a tudo julga. A cena é o ex-padre Joss numa varanda. É uma recepção de gala, ele está vestido com um smoking e segura uma bela taça de champanhe. Sua companhia é a cientista Ellie, que captou uma mensagem extraterrestre que a lançou no cenário mundial. Avessa a muita gente apertada no mesmo lugar, ela prefere ficar na varanda com a boa companhia de Joss. Logo ela pergunta "E se, antes de mais nada, Deus nunca existiu, e que o criamos mentalmente para jogar nele nossas ansiedades?" Ele faz aquela cara de a-coisa-vai-esquentar, respira fundo e lança a pergunta mais constrangedora possível naquele momento: "Ellie, você amava seu pai?" Sim, ela o amava profundamente, e Joss já sabia dessa estreita ligação quando fez a pergunta. Ela gagueja, pois esperava uma discussão puramente intelectual, terreno familiar para ela. Assim que ela confirmou esse amor pelo pai, Joss pergunta em tom grave: "Então prove". Providencialmente uma urgência de última hora a livra de responder a esta pergunta que inverteu o argumento na qual ela tanto confiava.
Para um cientista cético, Sagan captou com rara precisão a tensão que havia no ar. A resposta que fica subentendida na cena é que Ellie não pode provar seu amor pelo pai já falecido, pois não existe experimento científico que sirva para tal propósito. A única coisa que ela tem é seu relato verbal e a esperança de que Joss vá acreditar nela. Ele de fato acredita na intensidade do amor de Ellie por seu pai, mas, tendo em mãos apenas uma pergunta, mostrou que este amor não pode ser demonstrado por meio dos critérios céticos da ciência que ela advoga. Lúcida, cientista brilhante, destemida contra as interpretações errôneas mesmo sob a mais pesada pressão, Ellie sucumbe à incapacidade de provar a coisa mais preciosa que habitava seu interior. Ela sabia, ela tinha certeza, mas nunca conseguiria provar. Para um cético, nesta cena Sagan ficou mais parecido com o crédulo Joss do que com a cética Ellie. Toda vez que vejo essa cena – e eu já a vi dezenas de vezes – eu me delicio com a ironia do cético seletivo atirando no próprio pé. Quisera eu que todos os cristãos tivessem a mesma clareza de pensamento.
Entender isso foi uma libertação. Se as coisas do afeto são assim, o Deus no qual acredito sequer tentou provar sua existência. Se é nosso amor que ele sempre quis, uma prova inconteste se transformaria em obrigação racional, não em afeto legítimo. Amor provado e exigido não é amor de verdade.
(continua)