O tamanho da decepção presente é o tamanho da esperança passada
Estava no carro ouvindo o rádio, era a entrevista com um vereador petista que estava esclarecendo sobre as acusações de corrupção na prefeitura. A coisa estava complicada porque o prefeito de Santo André tinha sido assassinado a tiros. A trama foi uma combinação de tramóias com empresas de ônibus do município e desvio de dinheiro para campanhas eleitorais do PT. Diz-se que Celso Daniel, então prefeito, soube de desvio de dinheiro para as pessoas do esquema, e que resolveu fazer um dossiê revelando as maquinações. O suposto dossiê morreu com ele.
O vereador petista foi ao rádio para falar do suposto esquema de levantamento de fundos para as campanhas do PT e para enriquecimento pessoal de alguns. Como era de se esperar, ele defendeu seu partido e seus colegas. Negou peremptoriamente qualquer irregularidade. Por fim brandiu com a espada seu argumento final: "Como meus colegas de legenda podem ser corruptos? Isso não faz nenhum sentido. Eles são do PT!" Frio na espinha.
Quem sabe destas coisas diz que o esquema montado em Santo André serviu como laboratório para o esquema nacional do PT para levantar recursos por intermédio de valeriodutos e variantes. A investigação sobre a morte do prefeito continua sem conclusão até hoje. Foi em 2002.
É possível que alguém se irrite comigo por causa das minhas críticas ao PT, como se fosse uma vendeta pessoal. Não é. Explico. Eu esperava do PT muito mais do que ele apresentou nestes anos em que galgou os cargos públicos mais importantes do país.
Na oposição, o PT tinha fama de se guiar pelo lema quanto-pior-melhor, ou seja, quanto pior for a situação para o governo, melhor seria para o partido. Assim, as críticas poderiam ser mais ferrenhas e fama de partido ético, rigoroso, ficaria mais evidente para os eleitores. E eu me recordo bem que, nas eleições majoritárias, a questão da ética foi um ponto decisivo na vitória de Marta Suplicy e de Lula. Surgia uma nova esperança – uma nova estrela, se quiser – em que os mais ferrenhos dos críticos poderiam mostrar à nação a que vieram. Sim, havia uma esperança no ar.
Eu não fiquei muito animado, devo dizer. Ao mesmo tempo, fiquei na expectativa quanto ao que o pessoal da estrela vermelha faria. Como conduziria a coisa pública? Como manejaria o dinheiro? Daria calote no FMI como a ala radical queria? Erradicaria a corrupção como sugeriu aquele vereador de Santo André? Eu queria acreditar.
Penso no mensalão e não consigo acreditar que este é o mesmo PT da oposição que cobrava transparência. Penso na postura ainda mais conservadora adotada por Lula na condução da economia brasileira, e fico me perguntando o que há de diferente em relação ao governo anterior. Penso nos aumentos de impostos durante a gestão Marta Suplicy e me desgosto com o discurso de melhor gestão da verba em vez de aumento de impostos. Até hoje a chamam de Martaxa. E ouça lá: do jeito que o governo Lula está gastando, e aumentando a dívida publica, virão mais impostos por aí. A CPMF, que antes era um monstro a ser morto e enterrado na oposição, é a delícia desejada no governo atual.
Pense comigo e verá que existe uma ironia nisso que escrevo. Se tenho fortes críticas ao PT, como explicar minha decepção? Eu deveria estar de bravatas por ter farejado a hipocrisia antes, certo? Ora, só se decepciona quem tem expectativas, e boas expectativas. Todas caíram por terra, a começar pelo mensalão que triturou a ética, e a continuar pelo acolhimento de um programa de poder em detrimento de um programa de governo. Eu me decepciono porque tive esperança, ainda que do tipo vamos-ver-agora-se-esses-caras-conseguem-fazer-alguma-coisa-direito. Não fizeram, mostraram que são feitos do mesmo material que os outros políticos. Nenhum partido mais levanta a bandeira da ética, pois aquele que o fazia jogou a bandeira no chão e pisou nela sem a menor cerimônia.
Por isso o frio na espinha com a conversa se-é-PT-então-é-honesto-e-ponto-final.
Fico pensando de onde vem minha indignação contra os políticos corruptos. Vem, claro, do senso comum, da ideia de que eles estão lá para governar em nosso favor. Foi esta tarefa que nosso voto atribuiu a eles. No meu caso existe mais uma oitava nesta melodia dissonante, que é grande proximidade funcional que vejo entre os representantes do povo e os representantes de Deus, entre políticos e religiosos. Não é à toa que muitos religiosos se embrenham na política. Ambos exercem suas funções por delegação em favor de um grupo de pessoas, e ambos mostram propensões à mentira, ao roubo e ao descaramento. Quando soa em mim uma nota dissonante por causa de alguma falcatrua política, soa também uma nota em outra oitava que me recorda das falcatruas religiosas. São farinha do mesmo saco, farinha que cresce espoliando a esperança alheia.
(continua)